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Ormuz volta a ditar a inflação global e o Fed segue parado

O mês que se encerra confirmou aquilo que os mercados temiam desde o final de junho/26: o alívio inflacionário observado em boa parte das economias desenvolvidas foi, na melhor das hipóteses, temporário. A reescalada do conflito entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz, com ataques a petroleiros, a revogação de autorizações de venda […]

O mês que se encerra confirmou aquilo que os mercados temiam desde o final de junho/26: o alívio inflacionário observado em boa parte das economias desenvolvidas foi, na melhor das hipóteses, temporário.

A reescalada do conflito entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz, com ataques a petroleiros, a revogação de autorizações de venda de petróleo iraniano e novos bombardeios americanos contra alvos em território iraniano, devolveu ao mercado de energia a volatilidade que caracterizara o primeiro trimestre do ano.

O petróleo Brent, que chegara a negociar abaixo de US$ 80 no final de junho em meio a uma trégua frágil, voltou a romper a casa dos US$ 100 em meados de julho, para em seguida recuar para a faixa de US$ 86–89 nos últimos dias do mês; ainda assim, um ganho superior a 20% no mês, um dos mais expressivos da história recente do contrato.

O efeito cambial e sobre os preços de bens intermediários já é visível nos índices de preços ao produtor de várias economias; o que ainda não se manifestou por completo é o repasse desse choque para os índices de preços ao consumidor CPI, HICP e, no caso americano, o PCE, que só deverá aparecer com nitidez nas leituras de julho e agosto, a serem divulgadas ao longo de agosto e setembro.

Os bancos centrais, de modo quase uniforme, optaram por um comportamento reativo: mantiveram suas taxas básicas inalteradas nas reuniões deste mês, sinalizando que aguardarão a confirmação de que a alta do petróleo não desancorou expectativas antes de qualquer novo movimento.

É esse pano de fundo — bancos centrais em compasso de espera diante de um choque de oferta cuja duração ninguém consegue precisar — que organiza a leitura de cada uma das seis economias a seguir.

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Estados Unidos

O Federal Reserve manteve a taxa dos fed funds no intervalo de 3,50%–3,75% em sua reunião de 28 e 29 de julho, por votação de 9 a 3. Os três votos dissidentes das presidentes regionais B. Hammack (Cleveland), N. Kashkari (Minneapolis) e L. Logan (Dallas) defenderam elevação de 25 pontos-base, evidenciando uma ala do Comitê desconfortável com uma inflação que permanece acima da meta de 2% há mais de cinco anos.

Foi a segunda reunião sob a presidência de K. Warsh, que consolidou sua estratégia de comunicação enxuta, com comunicados mais curtos e menor sinalização prospectiva sobre o rumo da política monetária, uma ruptura deliberada com o estilo de seus antecessores.

A reação do mercado de títulos foi imediata: o rendimento da T-note de 30 anos avançou para o maior nível desde 2007, e as bolsas fecharam em queda acentuada, com o Dow Jones perdendo mais de mil pontos na sessão.

Do lado da atividade, o mercado de trabalho perdeu tração de forma mais visível do que o esperado, o payroll de junho criou apenas 57 mil vagas, bem abaixo do consenso de 115 mil, ainda que a taxa de desemprego tenha permanecido estável em 4,2% e os salários médios por hora tenham avançado 3,5% em doze meses, um ritmo moderado, compatível com a convergência gradual da inflação de serviços, mas também um sinal de que o mercado de trabalho já não gera a pressão salarial que sustentava parte da inflação doméstica nos últimos anos.

Do lado dos preços, o quadro em junho trouxe alívio real: o CPI recuou 0,4% no mês, levando a variação em doze meses de 4,2% para 3,5%, puxado por uma retração de 5,7% nos preços de energia; o núcleo, que exclui alimentos e energia, ficou estável no mês e desacelerou de 2,9% para 2,6% em doze meses.

O PCE de junho, divulgado em 30 de julho pelo Bureau of Economic Analysis apenas um dia após a decisão do FOMC e, portanto, fora do horizonte informacional da reunião, confirmou que essa desinflação foi pontual, caindo 0,1% no mês, a primeira retração mensal em seis anos, levando a variação anual de 4,1% para 3,7%, com o PCE Core avançando apenas 0,1% no mês, com variação anual de 3,3%, a menor deste ano.

Há, no entanto, um risco relevante sobre esses números. A queda de preços de energia que produziu o alívio de junho refletiu uma trégua tênue entre Washington e Teerã que já não existe mais.

Com a reescalada do conflito e o novo fechamento parcial do Estreito de Ormuz no início de julho, o Brent voltou a superar US$ 100 por barril antes de recuar para a faixa atual de US$ 86–89, ainda assim, mais de 20% acima do início do mês.

Como a gasolina responde por parcela desproporcional das oscilações mensais do PCE, é razoável esperar que a leitura de julho, a ser divulgada em 26 de agosto, reproduza o padrão observado em março, abril e maio deste ano, quando sucessivos saltos nos preços de combustíveis elevaram o índice cheio de forma abrupta, mesmo com o núcleo comportado.

No campo fiscal, o quadro segue como vetor de risco de médio prazo: o déficit orçamentário permanece elevado e a relação dívida/PIB segue acima de 120%, com o Fundo Monetário Internacional estimando a dívida geral do governo em 123,9% do produto e projetando crescimento de 2,4% para 2026 em base trimestral ante igual período do ano anterior.

Em depoimento recente ao Congresso, Warsh reiterou que o FOMC “não tem tolerância para inflação persistentemente elevada”, ao mesmo tempo em que destacou o vigor do investimento em capacidade de inteligência artificial, que cresceu cerca de 25% em quatro trimestres no segmento de alta tecnologia, como fator estrutural que tanto pode elevar o produto potencial da economia quanto complicar a leitura de curto prazo da política monetária, na medida em que mascara parcialmente a desaceleração do consumo das famílias.

Para os próximos dias, o calendário concentra a atenção em três eventos: o relatório de emprego de julho, o CPI de julho a ser divulgado em 12 de agosto, primeiro capturando de forma mais completa o novo salto do petróleo, e o simpósio de Jackson Hole, entre 27 e 29 de agosto/26, no qual Warsh deverá oferecer as primeiras pistas mais estruturadas sobre a reação do Fed a um cenário em que o choque de oferta energética se mostra mais persistente do que o antecipado em junho.

A reunião de setembro/26, marcada para os dias 15 e 16, deverá ser a primeira em que o Comitê precisará decidir se trata a nova alta do Brent como um evento transitório a ser “visto através” ou como fonte de repasse para expectativas de inflação de médio prazo, decisão que definirá se os três votos dissidentes de julho se tornarão maioria.

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Zona do Euro

O dado que resume o mês na Zona do Euro chegou na própria manhã de 31 de julho/26: a inflação medida pelo HICP reacelerou para 2,9% em termos anuais, segundo estimativa preliminar do Eurostat, revertendo a trajetória de queda que havia levado o índice a 2,8% em junho, o menor patamar desde fevereiro, período anterior à eclosão do conflito no Irã.

A reversão tem como consequência a inflação de energia saltou de 8,5% para 10,0% em doze meses, refletindo diretamente a nova alta do petróleo e do gás em julho, enquanto a inflação de serviços seguiu em leve elevação, de 3,2% para 3,3%.

O núcleo, que exclui energia e alimentos, também subiu, de 2,4% para 2,5%, sinalizando os primeiros sinais de repasse do choque energético para preços menos voláteis. Do lado positivo, o grupo de alimentos, álcool e tabaco continuou em desaceleração, de 1,5% para 1,2%, e os bens industriais não energéticos permaneceram estáveis.

O Banco Central Europeu, em sua reunião de julho, decidiu por unanimidade manter suas três taxas básicas inalteradas: a de refinanciamento principal em 2,40%, a de depósito em 2,25% e a de empréstimo em 2,65%, interrompendo, ao menos por ora, o ciclo de alta que havia iniciado em junho em resposta ao primeiro round do choque de energia.

A decisão foi tomada com base em dados que, até aquele momento, mostravam desinflação: o HICP havia recuado de 3,2% para 2,8% entre maio e junho, puxado pela desaceleração da energia, dos serviços e do núcleo. As projeções de junho do próprio BCE, ainda em vigor, preveem inflação de 3,0% para 2026, convergindo para 2,3% ao final de 2027 — números que já precisarão ser revisados à luz da reaceleração de julho.

Do lado da atividade, o bloco segue perdendo fôlego: o PIB da Zona do Euro recuou 0,2% entre o 4Q2025 e o 1Q2026, um sinal de que o canal de transmissão do choque energético para a atividade real já opera com alguma defasagem, mesmo com a inflação ainda contida em bases históricas.

Em discurso na conferência “The ECB and Its Watchers”, a presidente C. Lagarde reiterou que a resposta da autoridade monetária permanece ancorada em uma avaliação tripla: inflação subjacente, transmissão e persistência do choque, e que o Conselho seguirá essencialmente reativo e dependente de dados até a reunião de setembro.

Com a atividade perdendo fôlego, mas a inflação de serviços e as expectativas de preços de energia ainda elevadas e agora reforçadas pelo dado de julho, o cenário mais provável para setembro seguia sendo, até a virada do mês, o de manutenção das taxas; a reaceleração do HICP para 2,9%, no entanto, reabre o debate interno sobre se o ciclo de altas iniciado em junho deveria ser retomado caso os preços de energia continuem pressionados no terceiro trimestre.

Para as próximas semanas, o dado a acompanhar é a leitura completa do HICP de julho, a ser divulgada em meados de agosto, que permitirá decompor com mais precisão até que ponto a reaceleração de energia já vazou para bens e serviços centrais. A reunião de setembro do BCE, que também trará novas projeções trimestrais, deverá ser o primeiro teste real de como o Conselho concilia uma atividade em desaceleração com um choque de oferta que se recusa a desaparecer.

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Reino Unido

O Bank of England manteve a Bank Rate em 3,75% em sua reunião de 30 de julho/26, por maioria de 6 a 2, com os votos dissidentes defendendo elevação para 4,00%.

A decisão equilibra dois movimentos em direções opostas: de um lado, a inflação medida pelo CPI recuou de 2,8% para 2,6% em doze meses em junho, com os preços de combustíveis caindo pela primeira vez desde fevereiro; diesel e gasolina recuaram, encerrando meses de pressão ligada ao conflito no Oriente Médio, e os preços ao produtor desacelerando de 9,3% para 7,3% em doze meses, a primeira moderação desde janeiro.

De outro lado, a inflação de serviços permaneceu praticamente estável, em 3,6%, ante 3,7% em maio, e o núcleo do CPIH segue em 2,8% pelo terceiro mês consecutivo, evidência de que a parcela mais persistente e menos exposta a fatores externos da inflação britânica ainda não cedeu.

O Comitê de Política Monetária reconheceu, em sua súmula, que os preços globais de energia haviam recuado desde a reunião anterior em resposta aos desdobramentos no Oriente Médio, mas permaneciam bem acima dos níveis pré-conflito e continuavam voláteis: o Brent e o gás natural britânico no atacado haviam, em média, custado US$ 100 por barril e 116 pence por therm desde o último Relatório de Política Monetária, ante US$ 66 e 87 pence no período anterior a fevereiro.

Em discurso na conferência de Sintra, o governador A. Bailey adotou tom deliberadamente cauteloso, afirmando que cortes de juros estão “fora de cogitação no momento”, já que os britânicos “ainda não sentiram o efeito pleno” do choque, e reforçando, em declaração posterior, que mesmo com o recuo recente dos preços do petróleo, eles seguem acima do patamar pré-guerra, de modo que “já existe alguma pressão inflacionária no pipeline”, independentemente dos desdobramentos futuros do conflito.

Do lado da atividade, o PIB mensal cresceu 0,1% em maio/26, revertendo a contração de 0,1% de abril, com o avanço concentrado inteiramente no setor de serviços, enquanto produção industrial e construção recuaram.

No trimestre encerrado em maio, o PIB acumulou alta de 0,7% ante o trimestre anterior — a sexta expansão trimestral consecutiva — ainda que a comparação interanual de 1,3% tenha ficado abaixo do esperado pelo mercado.

O mercado de trabalho, por sua vez, segue perdendo tração de forma mais nítida do que nos Estados Unidos: a taxa de desemprego subiu para 4,9% no trimestre encerrado em abril, ante 4,6% um ano antes, com 1,76 milhão de pessoas desocupadas.

O próprio Banco projeta que a inflação volte a subir na segunda metade do ano, à medida que os aumentos de energia observados em meses anteriores continuem a se propagar pela cadeia de custos — o Comitê estima que o CPI fique pouco abaixo de 3% no terceiro trimestre e pouco acima de 3,25% no quarto, uma trajetória que, somada à nova alta do petróleo em julho, tende a ser revisada para cima na próxima atualização.

O quadro para os próximos meses é de um BoE que reconhece explicitamente conviver com uma inflação em pipeline, mesmo sem evidência ainda significativa de efeitos de segunda ordem sobre salários e preços; a combinação de energia ainda instável, serviços resistentes em 3,6% e uma ala minoritária, mas crescente, do Comitê defendendo alta de juros aponta para uma política monetária que seguirá em pausa por mais tempo do que os cortes inicialmente precificados pelo mercado no início do ano.

O próximo dado relevante é o CPI de julho, a ser divulgado em 19 de agosto — o primeiro a capturar de forma mais completa a reescalada de preços de energia observada neste mês.

Japão

O Banco do Japão manteve sua taxa básica de juros em 1,00% em sua reunião de 30 e 31 de julho/26, por votação de 8 a 1, com o dissidente Hajime Takata defendendo elevação para 1,25%. A decisão, amplamente antecipada pelo mercado, veio acompanhada da atualização trimestral do Relatório de Perspectivas, que elevou a projeção de crescimento do PIB para o ano fiscal de 2026 para 0,6%, ante os 0,5% projetados em abril, e para 0,8% no ano fiscal de 2027.

Ao mesmo tempo, o BoJ reduziu sua projeção de inflação ao consumidor (núcleo, excluindo alimentos frescos) para o ano fiscal de 2026 a 2,5%, ante 2,8% em abril — revisão para baixo que reflete as medidas do governo para aliviar o custo de energia das famílias no verão —, mas elevou a projeção para o ano fiscal de 2027, de 2,3% para 2,4%.

A aparente contradição entre uma atividade mais forte e uma inflação revisada para baixo no curto prazo esconde uma dinâmica mais complexa. O núcleo nacional, que exclui apenas alimentos frescos, rodou em 1,4% em maio e 1,6% em junho, abaixo da meta de 2% do BoJ pelo quinto mês consecutivo, puxado pela retirada gradual de subsídios governamentais a tarifas de eletricidade e gás, que tanto elevou a inflação medida quanto mascarou parte da pressão subjacente.

Já o indicador de Tóquio, tradicionalmente antecedente da leitura nacional, mostrou reaceleração expressiva em julho: o índice cheio subiu para 2,0% em doze meses, ante 1,7% em junho, e o núcleo que exclui alimentos frescos avançou para 2,0%, ante 1,9%, um sinal de que a inflação nacional de julho, a ser divulgada em agosto, deverá romper novamente a marca dos 2%.

O próprio comunicado do BoJ reconheceu esse risco de forma explícita: a taxa de variação do CPI, na visão do Conselho, deverá acelerar para um nível “claramente acima” de 2% a partir da segunda metade do ano fiscal de 2026, ou seja, a partir de setembro — refletindo o repasse de preços do petróleo bruto, que tem avançado a um ritmo relativamente rápido nas transações entre empresas, a depreciação recente do iene e a mudança de comportamento das firmas em direção a reajustes mais frequentes de salários e preços.

Os riscos para a projeção de inflação, segundo o Comitê, permanecem assimetricamente inclinados para cima.

O JPY, por sua vez, segue sob pressão intensa: a moeda atingiu mínima de 40 anos frente ao USD, cotada perto de ¥163, em meio a um contexto que ampliou a atenção sobre a comunicação do governador Kazuo Ueda quanto ao ritmo dos próximos movimentos.

Na noite de 30 de julho, o Ministério das Finanças japonês teria conduzido uma intervenção cambial em coordenação com autoridades americanas, que teriam executado uma “verificação de taxa” (rate check), movimento tradicionalmente visto como precursor de intervenção mais ampla, levando a moeda a se recuperar com força para a casa de ¥158.

Do lado da atividade real, o PIB do primeiro trimestre de 2026 cresceu 0,5% na comparação trimestral, o ritmo mais forte desde o mesmo período de 2025, sustentado pelo consumo privado, pelo investimento público e pelas exportações, ainda que o investimento empresarial tenha sido revisado para baixo em meio a juros mais altos e sentimento corporativo mais cauteloso quanto a novos aportes de capital.

O quadro japonês ilustra, talvez com mais clareza do que qualquer outra economia do grupo, o dilema do choque de petróleo, com o BoJ confiante sobre o crescimento e desconfiado da inflação, mas prefere não agir antes de confirmar que a aceleração da segunda metade do ano fiscal não é apenas um efeito de base estatística ligado à retirada dos subsídios de energia.

O mercado seguirá monitorando a leitura nacional de CPI de julho/26, a divulgação de agosto/26 e, sobretudo, a comunicação de Ueda sobre se a próxima alta de juros, amplamente esperada para outubro ou dezembro, pode ser antecipada caso o iene continue se depreciando e o petróleo permaneça pressionado.

China

A economia chinesa desacelerou de forma mais acentuada do que o esperado no segundo trimestre: o PIB cresceu 4,3% em doze meses, ante expectativa de mercado de 4,5% e uma expansão de 5,0% no 1Q — o ritmo mais fraco desde o 4Q2022.

Na comparação trimestral, o crescimento foi de 0,9%, também abaixo do 1,3% do trimestre anterior. No acumulado do primeiro semestre, o PIB avançou 4,7% em doze meses, ainda dentro da meta oficial de 4,5%–5,0% para o ano, mas já no limite inferior desse intervalo.

O Bureau Nacional de Estatísticas (NBS) reconheceu, em nota, um desequilíbrio “agudo” entre oferta robusta e demanda fraca, defendendo ajustes de política contra e cross-cíclicos mais intensos.

Os componentes por trás do resultado revelam uma economia dividida: as vendas no varejo de junho cresceram 1,0% em doze meses, revertendo a contração de 0,6% observada em maio, e a produção industrial acelerou para 5,3%, ante 4,5% em maio, beneficiada pela demanda por manufatura de alta tecnologia ligada ao boom de inteligência artificial.

Já o investimento em ativos fixos caiu 5,7% no acumulado do ano até junho, aprofundando a contração de 4,9% observada até maio, com o investimento em construção urbana recuando 3,8% em doze meses — uma retração que analistas de mercado vêm descrevendo como “sem precedentes” na intensidade, refletindo a combinação de um mercado imobiliário ainda em ajuste e restrições mais rígidas ao endividamento dos governos locais.

Do lado dos preços, o CPI de junho desacelerou para 1,0% em doze meses, ante 1,2% em maio, abaixo até do consenso de mercado de 1,1%; o núcleo, que exclui alimentos e energia, também recuou, para 1,0%. A queda foi puxada principalmente pelos preços de alimentos, que caíram 1,6% em doze meses, refletindo sobretudo o recuo de 7,3% nos preços de carne suína.

No atacado, o índice de preços ao produtor de bens de consumo permaneceu em terreno negativo, com queda de 0,9% em doze meses. A China segue, portanto, importando parte da pressão internacional de commodities via matérias-primas e mineração, cujos preços ao produtor subiram 16,5% e 8,6% em doze meses, respectivamente, mas sem conseguir repassar esse custo à ponta final da cadeia de consumo, em razão da fraqueza da demanda doméstica.

O mês fechou com uma surpresa negativa adicional: o PMI industrial oficial recuou para 49,2 em julho, ante 50,3 em junho, abaixo da mediana de expectativas de 50,0 e voltando a território de contração pela primeira vez desde fevereiro.

A fraqueza não se limitou à manufatura: o PMI de construção caiu para uma mínima recorde de 47,0, o indicador de serviços registrou o pior nível desde os primeiros meses da pandemia, e o PMI composto caiu para 49,3, também o menor patamar desde 2022.

Parte da deterioração foi atribuída pelo próprio NBS a uma sequência de tufões que paralisou obras e operações em diversas regiões, mas a magnitude do recuo e a extensão a serviços e construção sugere que o efeito do estímulo à demanda doméstica observado no início do ano começa a perder força, ao mesmo tempo em que o choque de petróleo do Oriente Médio eleva custos de insumo para um setor industrial que já opera com margens reduzidas.

Diante desse quadro, o mercado passou a precificar maior probabilidade de afrouxamento adicional por parte do Banco Popular da China no terceiro trimestre, com expectativa de corte da ordem de 20 pontos-base no compulsório bancário (RRR) para sustentar a liquidez, ainda que o espaço para cortes de juros mais agressivos permaneça limitado pela necessidade de conter a saída de capitais e pela pressão de custos vinda do exterior.

O Politburo deve se reunir ainda este mês para revisar a condução da política econômica e sinalizar o grau de estímulo fiscal e monetário para o segundo semestre.

Para as próximas semanas, os pontos de atenção são o comunicado do Politburo, os dados de agosto de PMI e comércio exterior que dirão se a fraqueza de julho foi de fato majoritariamente climática e temporária, como sugere o próprio NBS, ou reflete uma perda mais estrutural de tração da demanda doméstica, e o grau em que o custo mais alto de energia importada, decorrente da instabilidade no Estreito de Ormuz, começa a pressionar margens industriais mesmo em um contexto de preços ao consumidor ainda deprimidos.

Brasil

A divulgação do IPCA de junho trouxe uma surpresa positiva expressiva: o índice subiu apenas 0,16% no mês, ante alta de 0,58% em maio, uma desaceleração puxada sobretudo pelo grupo de Alimentação e Bebidas, que recuou 0,24%, e pelo alívio em parte dos preços administrados.

O movimento, no entanto, já mostrou sinais de reversão no indicador seguinte: o IPCA-15 de julho, divulgado em 25 de julho/26, reacelerou para 0,33%, ante 0,26% em junho, puxado principalmente pelo reajuste da energia elétrica residencial e por transportes — mais uma manifestação doméstica do mesmo choque de energia que atravessa as demais economias deste relatório, levando o índice acumulado em doze meses a 5,30%, ante 5,27% no mês anterior, e mantendo a inflação brasileira acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central.

Do lado da atividade, o PIB cresceu 1,1% no 1Q2026 ante o 4Q2025, o maior ritmo desde igual período de 2025, com destaque para a agropecuária, que avançou 2,0%, e para a retomada dos investimentos, que cresceram 3,5% após queda de 3,4% no trimestre anterior; na comparação interanual, a expansão foi de 1,8%.

Os indicadores de confiança da Fundação Getulio Vargas mostraram melhora firme em junho, com o Índice de Confiança do Consumidor subindo 2,1 pontos, para 90,8, o Índice de Confiança da Indústria avançando 3,0 pontos, para 100,1 pontos em doze meses, e o Índice de Confiança de Serviços também em elevação — um conjunto de sinais que sugere uma economia que segue crescendo, ainda que em ritmo moderado, mesmo sob taxa de juros historicamente elevada.

No mercado de trabalho, a taxa de desocupação medida pela PNAD Contínua ficou estável em 5,6% no trimestre encerrado em maio, ante 5,8% no trimestre anterior, com o rendimento médio real ainda crescendo 4,0% em doze meses, embora em ritmo mais lento que os 5,3% do levantamento anterior — um primeiro sinal de acomodação na renda do trabalho, ainda insuficiente para aliviar de forma relevante as pressões inflacionárias vindas do lado doméstico, mas que aponta para menor risco de repasse salarial no curto prazo.

O Comitê de Política Monetária do Banco Central, em sua última reunião, em 17 de junho, reduziu a Selic para 14,25% ao ano, mantendo tom cauteloso diante de uma inflação ainda acima da meta e das incertezas do cenário externo, decisão tomada, vale notar, antes da reescalada mais recente do conflito no Oriente Médio e da nova disparada do petróleo em julho.

Com a próxima reunião do Copom se aproximando, o mercado segue dividido. O cenário mais consistente com a leitura de dados domésticos seria o de manutenção da Selic no atual patamar, priorizando cautela e sinalizando que qualquer retomada do ciclo de cortes dependerá da consolidação da convergência das expectativas de inflação; não seria surpresa, contudo, que o Comitê optasse por reduzir novamente a taxa em 0,25%, levando a Selic a 14% ao ano, na leitura de que a desaceleração do IPCA de junho e a moderação dos rendimentos do trabalho já sinalizam espaço para dar continuidade, ainda que marginal, ao ciclo de flexibilização iniciado meses atrás.

Para os próximos dias, o dado mais relevante é a decisão do Copom, cujo resultado deverá equilibrar o alívio pontual do IPCA de junho com a reaceleração já capturada pelo IPCA-15 de julho e com o repasse ainda incompleto da alta do petróleo sobre os preços administrados domésticos, sobretudo combustíveis e energia elétrica, em um contexto no qual o Banco Central brasileiro, assim como seus pares nos Estados Unidos, na Zona do Euro, no Reino Unido e no Japão, ainda não tem elementos suficientes para separar o que é ruído transitório do que é pressão inflacionária persistente vinda do choque geopolítico no Oriente Médio.

Considerações Finais

Se fosse possível traduzir as principais ações de política monetária dos principais policymakers em julho/26, essa palavra seria “manutenção”; para outros, poderia ser “cautela”, dado a expectativa de uma redução do quadro benigno de inflação a ser apurado em agosto/26 e certamente um quadro mais ruim da inflação dessas economias em setembro/26.

Soma-se a tudo isso, um choque de oferta energética que se recusa a seguir um roteiro previsível, alternando períodos de trégua e reescalada no conflito entre Estados Unidos e Irã, colocando os principais bancos centrais do mundo — Fed, BCE, BoE, BoJ e, em menor medida, o PBoC — em uma postura ortodoxa de defensiva de esperar por mais dados antes de comprometer o rumo da política monetária.

A particularidade desta rodada do choque é que ele chega em um momento de atividade já enfraquecida em várias dessas economias — Zona do Euro, Reino Unido e China, cada uma a seu modo — o que reduz o espaço para respostas de política monetária mais agressivas mesmo diante de uma inflação em pipeline reconhecida abertamente por autoridades como Bailey e Ueda.

Nos próximos meses, o desafio comum será distinguir, nos dados de PPI e CPI (e de PCE, no caso americano), o quanto da nova alta do Brent observada em julho já foi absorvido pelos preços finais e o quanto ainda está a caminho, um exercício que deverá dominar as comunicações dos bancos centrais até pelo menos as reuniões de setembro/26.

Roberto Simioni
Economista – Chefe
Troon Capital

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