As projeções para a trajetória da política monetária norte-americana em 2026 enfrentam um cenário de elevada complexidade, exacerbado pela interação entre uma política fiscal expansiva e a resiliência dos núcleos inflacionários.
Assim como observado em economias emergentes, o “horizonte relevante” para o Fed em 2026 é impactado por pressões endógenas, notadamente o redesenho da política comercial (tarifas), que tornam a atividade de previsão um exercício de calibração constante de prêmios de risco.
Para a reunião do FOMC em janeiro, o mercado atribui 95% de probabilidade à manutenção da taxa.
Entretanto, a gestão das expectativas de longo prazo pelo Fed exige mais do que simples “torcida”, demanda prudência restritiva, em divergência com o consenso de mercado que precifica apenas uma pausa em janeiro.
Um ciclo mais agressivo reprecificaria as curvas longas, encarecendo o custo da dívida pública, já acima de 128% do PIB.
Ou seja, acreditamos que haja sim manutenção (postura que deveria ter sido adotada durante todo o 4Q2025), do intervalo da Fed Funds Rate (entre 3,50% – 3,75%).
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Esta pausa reflete a ortodoxia do colegiado diante de um PCE Core em 2,8%, ainda desconfortavelmente acima da meta de 2%, e um mercado de trabalho que, embora mostre arrefecimento nos payrolls, ainda não exibe o hiato negativo necessário para uma convergência sustentada.
O fenômeno de “roll-out” de expectativas, que recentemente assistimos no contexto brasileiro, replica-se no ambiente do FOMC. Projeções que anteriormente antecipavam um ciclo de corte agressivo foram postergadas.
O principal entrave permanece na inflação de serviços, que apresenta elevada histerese e menor sensibilidade ao aperto monetário em comparação aos bens industriais. Nesse contexto, a gestão das expectativas de longo prazo torna-se o elemento central.
O Fed tem sinalizado que a taxa terminal de 2026 será ditada pela velocidade da desinflação do setor não-transponível, evitando o erro clássico de uma flexibilização prematura que resulte em efeitos de segunda ordem (second-round effects).
Já antecipamos que 2026 será marcado por uma transição crítica na autoridade monetária dos EUA.
De um lado, a continuidade da função de reação ortodoxa sob a liderança de J. Powell; de outro, a incerteza quanto à orientação de seu sucessor, cuja indicação pela Adm Trump pode introduzir um viés de maior tolerância inflacionária em prol do crescimento do produto.
Contudo, sob o critério de prudência metodológica, nossas projeções fundamentam-se na manutenção de um regime ortodoxo.
Assumimos a hipótese de neutralidade e independência da autoridade monetária como o benchmark de nosso modelo BVAR, garantindo que as estimativas de taxa terminal não sejam contaminadas por ruídos de instabilidade institucional, preservando o rigor técnico necessário para a gestão de riscos.
Assim, nossas estimativas, baseadas em um modelo BVAR (de Lag 4), sugerem que a autoridade monetária adotará uma postura mais restritiva do que o “consenso dovish”.
Enquanto parte do mercado projeta cortes sequenciais somando 125 bps, nosso cenário base (ortodoxo) aponta para um ciclo mais cauteloso: três reduções de 0,25%, levando a taxa terminal para o intervalo de 3,00%–2,75%.
Essa trajetória em três etapas reflete um Impulse Response Function (IRF) de choque de desemprego, isto é, a simulação da resposta dinâmica da política monetária a um aumento inesperado na taxa de desemprego.
O resultado é um easing gradual, que preserva a prudência diante de um PCE entre 2,4%–2,6% e uma relação dívida/PIB de 124%–128%.
Diferentemente de um ciclo agressivo (6 cortes até 2,00%), essa abordagem mitiga riscos de dominância fiscal e efeitos de segunda ordem, mantendo a divergência em relação ao consenso dovish do mercado.
Nossa matriz projeta cenários conforme as variáveis fiscais e choques de oferta:
| Cenário | Déficit Fiscal EUA | Dívida/PIB | Fed Funds Final (%) | PCE (%) | Justificativa IRF |
|---|---|---|---|---|---|
| Base (Ortodoxo) | Equilibrado | 124% | 3,00 | 2,9 | Choque de desemprego gera easing gradual (-25bps). |
| Adverso | +1% PIB (Tarifas) | 128% | 3,50 | 3,5 | Pass-through inflacionário de custos +0,2pp. |
| Grave | +2% PIB | 132%+ | 3,75+ | 3,8+ | Dominância fiscal e elevação do prêmio de risco longo. |
Essa calibração eleva ligeiramente os prêmios de risco nos IRFs, justificando uma taxa terminal mais restritiva no cenário base e ampliando a divergência do consenso dovish (que ignora inércia acima de 120%).
A trajetória de cortes (março, junho, dezembro) permanece, mas com maior sensibilidade a dados de PCE não-transponível.
A política fiscal dos EUA em 2026 emerge como um choque de demanda positivo em uma economia com hiato do produto estreito.
A implementação de novas tarifas comerciais introduz um componente de inflação de custos que, econometricamente, eleva o pass-through para os preços internos.
Nesse ambiente, a inconsistência dinâmica se torna um risco, e qualquer sinalização de que o Fed possa priorizar o crescimento do PIB em detrimento da meta de 2% pode gerar um bear steepening da curva de juros, encarecendo o serviço da dívida pública, que já flerta com os 125% do PIB no cenário mais severo.
A trajetória que desenhamos para as reuniões de 2026 pressupõe um ciclo que se inicia em março, condicionado a um arrefecimento do PCE para a casa dos 2,9%.
- Março (17-18): Início do ciclo (-25bps), condicionado a dados de trabalho.
- Junho (16-17): Segundo corte (-25bps), totalizando 50bps acumulados.
- Dezembro (15-16): Redução (-0,25%), com taxa terminal entre 2,75%-3% (sem surpresa desinflacionária).
O ano de 2026 nos EUA, (assim como no Brasil), será marcado pela “prudência restritiva”.
A divergência de nossas projeções em relação ao cenário mais agressivo de cortes (que prevê uma redução para baixo de 2%, à partir de ações não ortodoxas de condução da política monetária) fundamenta-se na tese de que a dominância fiscal e da inércia salarial, que exigirão uma taxa real de juros superior à neutra por um período mais prolongado.
Manter uma postura cautelosa protege os portfólios da volatilidade nas curvas longas e da reprecificação súbita de prêmios de risco que a incerteza política de 2026 certamente trará.
Roberto Simioni
CFP®, CVM, CNPI, CEA, FINRA
Economista-Chefe
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