Fontes: European Council, Reuters e Valor Econômico
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i) O que foi assinado
O acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia é, na prática, um conjunto de dois pilares principais. O primeiro é o Acordo de Parceria Mercosul–UE (EMPA), que estabelece o arcabouço geral da relação, abrangendo desenvolvimento sustentável, transformação digital, cooperação política e diálogo institucional.
O segundo é o Acordo de Comércio Interino (iTA), pensado como um instrumento transitório para permitir a implementação mais rápida das partes comerciais do acordo, enquanto os processos de ratificação seguem nos parlamentos nacionais.
No campo comercial, o acordo prevê a redução progressiva de tarifas, maior previsibilidade regulatória e ampliação do acesso a mercados, especialmente em bens industriais, agrícolas e serviços.
Para a União Europeia, trata-se de ampliar exportações de máquinas, equipamentos, produtos químicos e bens de maior valor agregado. Para o Mercosul, o foco recai sobre produtos agrícolas, minerais, além de ganhos potenciais em investimentos e integração às cadeias globais.
Ainda assim, o acordo não entra em vigor automaticamente. Ele precisa do consentimento do Parlamento Europeu e da ratificação pelos parlamentos dos países do Mercosul.
ii) Um acordo após 25 anos e o tamanho do mercado envolvido
Segundo a Reuters, o acordo foi concluído após 25 anos de negociações, um período que por si só ilustra o grau de complexidade econômica, política e regulatória envolvido. Trata-se de um dos maiores acordos comerciais do mundo, conectando dois blocos que, juntos, representam um mercado de cerca de 700 milhões de pessoas.
Nesse contexto, a declaração oficial que acompanhou a assinatura ajuda a entender o simbolismo do momento:
“This agreement sends a very strong message to the world, it reflects a clear and deliberate choice. We choose fair trade over tariffs. We choose a productive, long term partnership over isolation. And above all, we intend to deliver real and tangible benefits to our people and our businesses.”
Mais do que comércio, o acordo foi apresentado como uma escolha política em um mundo cada vez mais marcado por tarifas, fragmentação e tensões geopolíticas.
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iii) Canadá, China e a ideia de uma “nova ordem mundial”
O movimento europeu ocorre em paralelo a outros realinhamentos relevantes. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, por exemplo, recentemente sinalizou uma reaproximação estratégica com a China. Em sua visita oficial, afirmou:
“Mine is the first visit of a Canadian prime minister to China in nearly a decade. The world has changed much since that last visit, and I believe that the progress that we have made in partnership set us up well for the new world order.”
A referência explícita a uma “nova ordem mundial” não é casual. Ela reflete a percepção crescente de que o sistema internacional está se reorganizando, com países buscando diversificar parceiros, reduzir dependências excessivas e construir novas alianças econômicas e estratégicas fora dos eixos tradicionais.
Nesse sentido, o acordo Mercosul–UE se insere em um movimento mais amplo de reconfiguração das relações comerciais globais, em que acordos de longo prazo voltam a ganhar relevância como instrumentos de estabilidade.
iv) O efeito dominó para o Brasil
De acordo com o Valor Econômico, o acordo com a União Europeia pode abrir caminho para novas negociações comerciais do Brasil e do Mercosul com outros países e blocos, como Canadá, Reino Unido e Japão. Após anos de relativo isolamento, o Mercosul parece voltar ao radar das grandes negociações comerciais internacionais.
Conclusão
Curiosamente, esse movimento ocorre em um contexto em que o protecionismo dos Estados Unidos ganha força. Como resumiu Marsilea Gombata, pesquisadora em relações internacionais da USP, “o protecionismo do governo Trump parece estar levando o Brasil a uma nova fase em termos de política comercial”.
Mais do que um acordo específico, o Mercosul–UE pode sinalizar uma mudança de postura: menos dependência de um único eixo e maior disposição para se integrar a uma economia global cada vez mais fragmentada, porém, ainda profundamente interdependente.




