Neste post, discuto a importância das terras raras, seu papel em setores estruturais e como a China utiliza o controle da cadeia de produção e processamento para exercer influência geopolítica e estratégica.
Para isso, organizei a análise em cinco pontos centrais:
- A relevância e a necessidade dos metais raros
- A diferença entre produção e processamento
- A concentração e o controle chineses da cadeia
- Por que é tão caro construir um hub de metais raros
- Estados Unidos, influência geopolítica e potenciais investimentos internacionais (Brasil)
Fontes: CSIS, S&P Global, Visual Capitalist
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1. A relevância e a necessidade dos metais raros
Os metais raros são um dos insumos mais estratégicos da economia moderna porque atravessam, ao mesmo tempo, a defesa nacional, a saúde e o cotidiano das pessoas.
Em sistemas militares avançados, o uso é massivo: um caça F-35 incorpora mais de 400 kg de metais raros, enquanto um submarino da classe Virginia pode consumir aproximadamente 4.170 kg desses elementos.
Mas a dependência não se limita ao setor militar. Metais raros são essenciais em equipamentos médicos como ressonância magnética, tratamentos contra o câncer, além eletrônicos de consumo e semicondutores. Ou seja, qualquer disrupção nessa cadeia afeta simultaneamente a segurança nacional, os sistemas de saúde e produtos básicos do dia a dia.
2. A diferença entre produção e processamento
Um ponto frequentemente subestimado é a diferença entre produzir e processar metais raros. O verdadeiro gargalo está no processamento e na separação química, etapas altamente complexas, intensivas em capital, energia e know-how técnico.
Embora responda por cerca de 60% da produção global de metais raros, a China concentra aproximadamente 90% do processamento, percentual que sobe para 99% no caso dos metais raros pesados (HREEs).
3. A concentração e o controle chineses da cadeia
Mais do que uma vantagem histórica, essa posição dominante é ativamente defendida. Empresas chinesas têm demonstrado disposição de pagar prêmios muito elevados para manter o controle da cadeia. Em 2025, por exemplo, um projeto relevante na África foi adquirido com um prêmio próximo de 200% sobre o preço de mercado.
Além disso, a China já deixou claro que está disposta a usar esse controle como instrumento geopolítico. Ao longo dos últimos 15 anos, restringiu exportações em momentos-chave e, mais recentemente, impôs controles à exportação de tecnologias de processamento e separação de metais raros.
4. Por que é tão caro construir um hub de metais raros
Construir hubs alternativos de processamento é extremamente caro e demorado. O transporte pode representar mais de 50% do custo total do produto final, o que torna a proximidade geográfica da matéria-prima um fator crítico de viabilidade econômica.
Além disso, a produção exige volumes gigantescos de água — em alguns casos, mais de 10 mil quilos de água por quilo de metal processado — e é altamente intensiva em energia, com o processamento podendo demandar de 9 a 13 vezes mais energia do que a simples extração.
5. Estados Unidos, influência geopolítica e potenciais investimentos internacionais (Brasil)
Os Estados Unidos também enfrentam limitações domésticas relevantes. O tempo médio entre a descoberta de uma mina e o início da produção se aproxima de 30 anos, um dos mais longos do mundo, com pouquíssimos projetos efetivamente entrando em operação nas últimas duas décadas.
Diante desse horizonte, qualquer estratégia para reduzir a dependência da China tende a exigir investimentos fora do território americano, em países aliados ou parceiros estratégicos.
Nesse contexto, o Brasil surge como um candidato potencial: conta com recursos naturais abundantes, matriz energética relativamente limpa e ampla disponibilidade hídrica.
Por outro lado, enfrenta entraves importantes, como insegurança jurídica e um processo de licenciamento que pode levar mais de uma década até a operação efetiva. Sem endereçar essas questões institucionais, o país corre o risco de perder uma oportunidade estratégica justamente em um momento em que o Ocidente busca alternativas urgentes à concentração chinesa.
Conclusão
No fim, a discussão sobre terras raras vai muito além de mineração ou tecnologia. Trata-se do controle das cadeias produtivas críticas em um mundo cada vez mais fragmentado, onde eficiência econômica e segurança estratégica nem sempre caminham juntas.
Reduzir dependências, diversificar fornecedores e construir capacidade industrial fora dos centros tradicionais exigirá tempo, capital e coordenação entre governos e setor privado.
Mais do que uma disputa pontual, o tema das terras raras ilustra um movimento estrutural: cadeias globais deixam de ser apenas um problema econômico e passam a ocupar o centro das decisões geopolíticas.
As escolhas feitas hoje — sobre onde investir, com quem se alinhar e quais riscos aceitar — tendem a definir não apenas a competitividade industrial, mas também o equilíbrio de poder nos próximos anos.




