Vivemos um momento singular. Num mundo que pouco importa a ideologia do governante, a política fiscal é expansionista. O Estado gasta muito! Cremos que seja uma das maiores heranças econômicas da Covid.
Consideramos que o fórum anual do Banco Central americano (Fed) de 2020 em Jackson Hole (WY) foi o divisor de águas.
Foi ali o que o maior Banco Central (BC) do mundo, normalmente um ente bem conservador, pediu para o Tesouro gastar. Tudo o que qualquer político sonha: o chato do BC pedir para o governante gastar!
Ocorre que este comportamento virou padrão global. Uma avalanche de gasto público para “evitar” um mal maior decorrente da pandemia. A diferença mundo afora residiu na magnitude.
E repetindo: pouco importando o viés ideológico. Os “conservadores” (direita) começaram a gastar muito e gostaram. O que difere a conotação política é a escolha da linha do orçamento.
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O Estado cresceu. Citamos, em seguida, algumas semelhanças entre governos no tocante ao gasto público: (i) nenhum quer cortar gastos, apesar de déficits fiscais acima do recomendado e de uma economia que hoje não necessita de tanto estímulo; (ii) todos querem aumentar arrecadação e (iii) cortar juros na marra, afinal devem mais e numa taxa de juros maior.
Com relação a juros/inflação, apesar da (i) maior taxa de juros básica, (ii) o PIB não cai tanto, pois o estímulo fiscal é perene. A (iii) inflação corrente segue acima das metas, restando a (iv) dúvida do tamanho do espaço para redução responsável dos juros.
Olhando a estrutura da dívida, observamos a (i) falta de apetite dos investidores por dívida com prazo mais longo (onde se precifica maior risco fiscal) resultando no seu (ii) encurtamento de prazo.
Assim, por mais que os BC cortem a taxa de juros de curto prazo, a (iii) curva trabalha mais inclinada positivamente, onerando atividades que dependam de capital de longo prazo (por exemplo construção civil, infraestrutura, investimentos em setores de capital intensivo). É quase um novo normal econômico.
A este cenário, soma-se a maior incerteza geopolítica, maior interferência governamental que representam obstáculos adicionais ao crescimento. Estas condições apontam para um crescimento econômico menor no médio/longo prazo.
Mesmo nas economias desenvolvidas, é difícil crer que novos governantes mudem a postura fiscal expansionista. O que faria os juros longos caírem no mundo? O que levaria a uma mudança? Difícil dizer. Provavelmente uma crise financeira.
O novo tamanho do Estado, com maior dispêndio (primário e despesas com juros), aumenta a necessidade de financiamento, elevando de forma estrutural o patamar de juros.
Nos Estados Unidos, temos ainda a nova competição por capital de médio/longo prazo dos enormes investimentos ligados a inteligência artificial. Estima-se montante da ordem de quase US$1 trilhão/ano pelos próximos 4-5 anos. Teremos efeito na precificação da curva soberana e tendência a encurtamento de prazo.
Outra consequência desta farra fiscal é o custo de vida da população. A alta inflação pós-Covid provocou uma mudança relevante no patamar de preços.
Mesmo com inflação recente mais comportada, este efeito causou forte estrago no poder de compra da população. E obviamente com reverberações políticas.
Estamos presenciando um novo conjunto de medidas do governo Trump que buscam atacar esta elevação do custo de vida (affordability)!
O mundo está mais parecido. Países desenvolvidos e emergentes apresentando conjuntura mais semelhante. Vamos discorrer sobre derivações deste tema nos próximos artigos.
Teremos atenção especial aos Estados Unidos, em função do seu tamanho (em torno de 27% do PIB nominal mundial) e sua importância na alocação de poupança global.
Até breve e bons investimentos!




