Bitcoin caiu para seu menor preço desde meados de abril do ano passado. Mas, ao contrário de Brás Cubas, a criptomoeda não dedica suas quedas à verme algum. Além disso, a ‘morte’ do ouro digital já foi anunciada algumas vezes ao longo dos ciclos.
Na realidade, a criptomoeda está dedicando seu ‘período em óbito’ aos popularmente chamados mãos de diamante, investidores que não largam mão do ativo. A indústria está em um ponto de baixa no preço, mas de alta performance em discussões centrais referentes à regulação, inovação e disrupção.
Portanto, a história que há de se desenrolar no mercado cripto destoa do personagem do Machado de Assis. O ativo está silenciosamente esgueirando-se no cotidiano da população mundial.
Ano passado, diversas mudanças no cenário regulatório passaram despercebidas para quem não acompanha a tecnologia, ofuscadas pelo atraente preço de tela e candles verdes. Entre elas, a proposta de reserva nacional, o levante das BTC Treasuries Companies e os massivos influxos dos ETFs à vista.
Atualmente, com Bitcoin em US$ 73 mil, o cenário é inverso. Enquanto investidores vendem ao som dos violinos, o cenário continua positivo e o palco para a próxima bull run está sendo construído.
Por exemplo, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, defendeu nesta semana a existência de uma Reserva Estratégica de Bitcoin nos EUA, e usou as apreensões feitas pelo país como indicador e métrica em seu argumento.
A reserva nacional de Bitcoin dos Estados Unidos, conhecida como Strategic Bitcoin Reserve, entrou em pauta por meio de uma ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump em março de 2025. Em resumo, o principal objetivo é justamente de reter Bitcoins apreendidos em ações de aplicação da lei como um ativo estratégico, em vez de liquidá-los.
“Esse é um ativo do governo americano. Da apreensão de US$ 1 bilhão em bitcoins, US$ 500 milhões foram retidos. E esses US$ 500 milhões se transformaram em mais de US$ 15 bilhões”, defendeu Bessent.
Apesar do estabelecimento formal, a implementação enfrenta obstáculos, como “provisões legais obscuras” mencionadas pelo conselheiro da Casa Branca Patrick Witt em janeiro de 2026, o que tem atrasado ações adicionais além da retenção inicial.
Prazo para relatórios e ações federais, como os previstos na ordem executiva, já expiraram sem atualizações significativas, e projetos de lei como o BITCOIN Act de 2025, que visam expandir a reserva com compras orçamentariamente neutras, ainda não foram aprovados pelo Congresso.
Enquanto isso, estados como Texas e New Hampshire estão avançando com reservas próprias em nível estadual, com o Texas sendo o primeiro a comprar Bitcoin via ETF para financiar sua reserva local, sinalizando uma “corrida de reservas” subnacional que pode influenciar o debate federal.
Vale lembrar que, o aumento desse tema no âmbito privado também pode ser observado. Ou seja, as empresas que adotam a estratégia de Reserva com a criptomoeda continuam surgindo no mundo inteiro.
Finalmente, a percepção de alguns analistas é de que o choque de oferta será um dos principais motivos para uma próxima alta. O limite de 21 milhões de unidades implica que não existe bitcoin para todos. Quando a demanda retornar, a oferta poderá já estar nas mãos do Tio Sam, ou no caixa de alguma grande instituição.
Para Vinícius Bitelo, analista de criptomoedas na Altside, sim, existe uma probabilidade crescente de um choque de oferta nos próximos meses, mas ele depende da retomada dos fluxos marginais de demanda.
“O Bitcoin passou pelo pior período desde o lançamento dos ETFs, com saídas consecutivas que refletem mais o sentimento do varejo e o aperto de liquidez de curto prazo do que uma mudança estrutural institucional. Esse movimento foi amplificado por ruídos macro e eventos que reduziram a liquidez e pressionaram indicadores de risco para níveis de medo extremo”, avaliou.
Nesse sentido, a tese dos bitcoiners – de que a maior qualidade de quem detém o ativo necessita ser uma preferência de janela temporal alta – é colocada em prática.
Isso é, no curto prazo, o Bitcoin deve seguir o ritmo da macroeconomia. Com incertezas, a tendência é de baixa.
“Se o fluxo voltar a se estabilizar, com ETFs retomando compras líquidas e empresas voltando a acumular BTC, o mercado pode entrar novamente em um regime de oferta mais restrita, onde pequenos aumentos de demanda geram movimentos assimétricos de preço. Ainda assim, esse processo tende a se materializar de forma gradual, e pode levar alguns meses até ficar evidente”, disse.
No que tange à reserva dos EUA, Bitelo diz que vai levar um tempo para que os efeitos sejam vistos pelo mercado.
“Do jeito que está estruturada hoje, ela não significa que o governo vai sair comprando Bitcoin no mercado, mas sim que está formalizando a retenção de BTC que já foi confiscado. Isso diminui a chance de venda futura desses ativos e melhora a sinalização institucional, mas não cria um fluxo comprador relevante no curto prazo”.
Portanto, o especialista comenta que, “o efeito realmente forte só viria se essa reserva evoluísse para algo permanente via legislação e, principalmente, se os EUA passassem a acumular Bitcoin de forma ativa além dos confiscos.”
Mesmo assim, o analista avalia que o efeito psicológico já existe. A narrativa carrega consigo a credibilidade da maior economia do mundo.
“ É um vetor positivo, mas se tiver efeito no preço, tende a acontecer ao longo de meses ou até anos, e não como um gatilho imediato”, concluiu Bitelo.




