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O que podemos esperar para as próximas reuniões de política monetária?

Em 2026, a economia global consolidou uma transição de regime, passando a ser condicionada menos por choques macroeconômicos tradicionais de ciclo e mais pela afirmação da geopolítica como variável estrutural na precificação, no investimento e na formulação de política monetária. O epicentro dessa mudança está na incerteza da matriz energética global e nas rotas de […]

Em 2026, a economia global consolidou uma transição de regime, passando a ser condicionada menos por choques macroeconômicos tradicionais de ciclo e mais pela afirmação da geopolítica como variável estrutural na precificação, no investimento e na formulação de política monetária.

O epicentro dessa mudança está na incerteza da matriz energética global e nas rotas de escoamento do comércio internacional.

A extensão do conflito entre EUA e Irã desde março/26, ao ultrapassar a marca de 100 dias sem qualquer resolução diplomática, deixou de operar como um ruído geopolítico de curto prazo e passou a assumir um papel de força reorganizadora do capitalismo global.

Desde o início do conflito, o petróleo (Brent) acumulou uma alta superior a 42%, refletindo não apenas o estrangulamento logístico com o aumento das tensões no Estreito de Hormuz, mas também a destruição de várias plantas petroquímicas em diversos países no Oriente Médio.

Este cenário introduziu na economia global um choque de oferta por definição, porém com propriedades de persistência que desafiam as séries temporais históricas. O petróleo e o gás natural deixaram de afetar meramente os índices cheios de preços ao consumidor por meio do canal direto dos combustíveis.

Atualmente, a alta se propaga de forma assimétrica por toda a matriz de insumos intermediários, elevando drasticamente os custos de combustíveis marítimos estratégicos, o que se traduz no encarecimento do frete internacional, dos seguros de carga e da energia embutida na manufatura pesada, impactando e comprimindo margens operacionais das empresas e erodindo o poder de compra das famílias.

Nas últimas semanas, os debates macroeconômicos abandonaram as discussões estritas sobre a transitoriedade da inflação, sustentabilidade da dívida pública e o ritmo de crescimento de curto prazo, migrando para os eixos de risco: a instabilidade política internacional decorrente dos choques de preços provocados pela redução da oferta de petróleo e gás, bem como a temporalidade e a transmissibilidade desses efeitos nas economias.

Esse deslocamento altera profundamente as expectativas de inflação e a formação de custos estruturais de financiamento por parte das empresas.

Observa-se também que bancos centrais manifestam sinais de possíveis reversões de sua política monetária, como é o caso do Banco Central da Coreia do Sul (BoK) e do Banco do Japão (BoJ), cujo dilema consiste em conduzir uma normalização monetária que evite a consolidação de pressões inflacionárias de segunda ordem, mas sem estrangular uma recuperação econômica que ainda se mostra frágil e excessivamente dependente do crescimento dos salários reais.

Ambos bancos centrais têm sinalizado intenção de aumentar juros no 2º semestre de 2026 a partir do aumento da inflação registrada.

Na Europa, há ainda o Banco Central Europeu (BCE), que terá reunião nesta semana, e cujo bloco de nações se encontra estruturalmente exposto aos choques de oferta devido à sua dependência crônica de importações de commodities energéticas e à sua exposição direta às disrupções das rotas de navegação marítima.

Outro caso que poderemos em breve observar é o do Banco da Inglaterra (BoE), cujo cenário macroeconômico assume contornos de crise institucional.

Encurralado entre uma inflação de serviços resiliente e uma atividade econômica debilitada pela perda crônica de produtividade pós-Brexit, o BoE enfrenta ainda o risco de guinadas fiscais expansionistas decorrentes da instabilidade política interna. A expectativa é de possível aumento de juros pelo BoE no 2º semestre de 2026.

Na próxima semana, teremos também as reuniões de política monetária do Federal Reserve (Fed) e do Banco Central do Brasil (BCB).

Assim como nas demais autoridades, fica a expectativa de como tais bancos centrais agirão frente aos desafios inflacionários: se promoverão ajustes mais proativos em termos de magnitude ou se preferirão passos menores, tentando acomodar no tempo (e será necessário agora muito mais tempo) as distorções inflacionárias, o crescimento e o consumo.

Caso o Federal Reserve opte por um controle considerando a duração do choque inflacionário de 2 trimestres, deverá realizar pelo menos 3 aumentos de juros ao longo do 2H, sem necessariamente ter certeza se conseguirá acomodar a inflação dentro do horizonte de 18 meses.

Caso opte por uma leitura de choque prolongado (>3 trimestres), pode vir a realizar pelo menos 2 aumentos de juros mais robustos, entre 0,50% e 0,75%, para contê-la no período, deixando para segundo plano os impactos sobre a atividade e o risco de maior inadimplência por parte da população de mais baixa renda, que perde capacidade de consumo e sofre com um alto nível de endividamento.

No caso do Brasil, o cenário pode reservar surpresas.

Na semana da última “Superquarta”, vários bancos centrais mantiveram os juros; a exceção foi o Banco Central do Brasil, que realizou nas últimas duas reuniões do COPOM dois cortes consecutivos de 0,25% em cada um, acumulando 0,50 p.p. de redução.

A decisão do BCB agora exige um posicionamento mais crítico diante do entendimento da extensão não apenas do conflito entre EUA e Irã, mas da magnitude do choque de oferta que ainda pode se materializar.

Buscando estimar a duração desse choque inflacionário de oferta (petróleo, gás, derivados, polímeros, fertilizantes, etc.) e contemplando na modelagem o comportamento das variáveis IPCA, expectativa de inflação para os próximos 12 meses, hiato do produto (output gap), câmbio, Selic e variáveis de energia (Brent), o BCB terá de se posicionar claramente na próxima reunião sobre qual cenário acredita ser o mais provável.

Infelizmente, uma escolha incorreta pode gerar custos de ajuste ainda maiores em um futuro breve. Desta forma, podemos inicialmente desenhar dois Cenários:

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Cenário 1: Choque inflacionário por 2 Trimestres

Se o BCB considerar um cenário onde o choque inflacionário durará apenas 2 trimestres, poderá optar por manter os juros no atual patamar durante o 2º semestre de 2026, tolerando uma projeção de inflação entre 4,0%–4,5% em 2026 e 3,5%–4,0% em 2027, ambas acima do centro da meta de 3,0%.

Nessa hipótese de convergência lenta (superior a 8 trimestres), o choque poderia elevar o IPCA próximo de 1,8 p.p. no primeiro ano e 2,4 p.p. no segundo ano. Os efeitos não desapareceriam rapidamente, gerando inércia e levando as expectativas de inflação a se descolarem para a faixa de 4,5%–4,8% em 2026–2027.

Nesse caso, a economia perde força, combustíveis e fretes mais caros pesam no bolso das empresas e das famílias, além de uma depreciação cambial estimada próxima de 7%. A expectativa de crescimento do PIB poderia ser reduzida para cerca de 1,6% em 2026, abaixo da média histórica de 2,5%–3,0%.

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Cenário 2: Choque Prolongado (>3 Trimestres)

Caso o BCB acredite que o impacto inflacionário se dará por um período superior a 3 trimestres (choque prolongado), a duração do efeito inflacionário exigirá uma correção mais enérgica da taxa básica.

Em um cenário de inflação persistente, com repasse de custos aos preços ocorrendo de forma mais duradoura, as empresas ajustariam preços com maior frequência e os trabalhadores buscariam proteção salarial.

Para evitar a amplificação desse choque de oferta, o BCB seria obrigado a promover um novo ciclo de aperto, elevando os juros para o patamar de 15%, mantendo-o nessa condição restritiva por pelo menos 3 trimestres.

Neste cenário, as projeções se ajustariam, IPCA em 4,8%–5,2% em 2026 e 4,0%–4,4% em 2027, as expectativas de inflação poderiam descolar-se para cima de 5,3% em 2026–2027; uma depreciação cambial estimada próxima a 10%; e crescimento do PIB reduzido para 1,4%–1,7% em 2026.

Desta forma, a próxima reunião pode representar um divisor de “águas” em termos de orientação da política monetária, com o BCB tendo de adotar uma posição mais clara para o 2H2026.

E isso porque, caso opte pela posição de não agir (mantendo ou mesmo reduzindo novamente os juros) estará assumindo a possibilidade de construir uma inflação acima da meta para os próximos trimestres, acelerando a desancoragem das expectativas; mas, caso venha a optar pelo retorno do juros ao ciclo de aperto monetário, estará aceitando a possibilidade de perda de produto e maior pressão social no 2H2026.

Na prática, será uma decisão difícil porque, se vier a ser otimista demais, terá de corrigir o rumo rapidamente, dado que, neste novo regime de dominância geopolítica, errar para menos na taxa de juros pode custar, em termos reputacionais, muito mais do que errar para mais.

Roberto Simioni
Economista – Chefe
Troon Capital

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