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O Real frente ao Dólar em um mundo de incertezas geopolíticas: Tarifas Comerciais e Turbulência Eleitoral

Por Sérgio Brotto, CEO da Dascam Corretora de Câmbio Prever o comportamento de uma moeda é, ao mesmo tempo, uma necessidade inescapável para agentes econômicos e uma tarefa de humildade intelectual permanente. O mercado cambial, o maior e mais líquido do mundo, é influenciado por uma teia de variáveis tão vasta e interconectada que até […]

Por Sérgio Brotto, CEO da Dascam Corretora de Câmbio

Prever o comportamento de uma moeda é, ao mesmo tempo, uma necessidade inescapável para agentes econômicos e uma tarefa de humildade intelectual permanente.

O mercado cambial, o maior e mais líquido do mundo, é influenciado por uma teia de variáveis tão vasta e interconectada que até os modelos econométricos mais sofisticados tropeçam diante da complexidade do real.

Neste artigo, proponho uma reflexão sobre essa imprevisibilidade, com foco na relação entre o Real brasileiro e o Dólar americano, à luz dos eventos recentes: a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre o tarifaço de Trump, o desequilíbrio fiscal brasileiro, o ano eleitoral, a gestão cambial do Banco Central e os ventos contraditórios do cenário geopolítico global.

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O Terremoto Tarifário: A Suprema Corte e a reação de Trump

Na sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou, por seis votos a três, as tarifas abrangentes impostas pelo presidente Donald Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).

A Corte entendeu que o presidente excedeu os limites de sua autoridade ao impor, sem autorização expressa do Congresso, a maior intervenção tarifária unilateral da história recente dos Estados Unidos.

A decisão anulou dois pacotes principais: o tarifaço “contra as drogas” (25% sobre Canadá e México, 20% sobre China) e as tarifas globais aplicadas a mais de cem países, que haviam gerado mais de US$ 160 bilhões em arrecadação.

A reação de Trump ilustra com perfeição a dinâmica de incerteza que rege as moedas. Poucas horas após a decisão, anunciou uma tarifa substitutiva de 10% pela Seção 122 do Ato de Comércio de 1974, instrumento mais limitado, que permite tarifas de até 15% por no máximo 150 dias.

No sábado, elevou-a a 15%. A mensagem foi clara: a guerra comercial não acabou; mudou de ferramenta jurídica. Em menos de 48 horas, passamos de uma expectativa de normalização comercial para um novo cenário de incerteza, com base legal diferente, prazo de validade definido e dúvidas sobre os próximos passos do Congresso.

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O Xadrez Geopolítico: Peças em movimento permanente

O episódio da Suprema Corte não ocorre isoladamente. A reconfiguração do sistema monetário internacional ganhou contornos mais nítidos: a China tem incentivado seus bancos a reduzirem a dependência do dólar, promovendo moedas alternativas em operações comerciais e acordos bilaterais.

O índice DXY, que mede o dólar contra uma cesta de moedas fortes, recuou quase 9% ao longo de 2025, sinalizando um enfraquecimento estrutural da moeda americana. Conflitos regionais persistentes, a fragmentação entre blocos geopolíticos e os movimentos protecionistas criam um ambiente em que o chamado “flight to safety” pode se inverter a qualquer momento.

O dólar, porto seguro incontestável por décadas, agora divide esse papel em um ambiente de maior fragmentação financeira.

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O calcanhar de Aquiles: O desequilíbrio fiscal brasileiro

Se o cenário externo oferece tanto oportunidades quanto riscos, o cenário doméstico carrega uma vulnerabilidade crônica que funciona como amplificador permanente da volatilidade cambial. Segundo a Fitch Ratings, o Brasil deve registrar o maior déficit fiscal da América Latina em 2026.

A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado projeta um déficit primário de R$ 128 bilhões para este ano e estima que seria necessário um esforço adicional de R$ 72 bilhões para cumprir a meta fiscal.

A dívida bruta, que encerrou 2025 próxima de 80% do PIB, pode atingir 84% neste ano. O Brasil possui a segunda maior dívida pública entre as nações emergentes, superado apenas pela China.

O impacto sobre o câmbio opera por múltiplos canais. A percepção de risco soberano elevado pressiona o prêmio de risco-país e força o Banco Central a manter a Selic em 15%, o maior nível dos últimos anos. Se os juros altos sustentam o real via carry trade, por outro lado impõem custos severos: encarecem o crédito, desestimulam investimentos e, paradoxalmente, alimentam o próprio déficit ao elevar o custo de serviço da dívida.

A bomba fiscal é uma espada de Dâmocles permanente sobre o real: enquanto os fundamentos fiscais não se estabilizarem, qualquer ganho cambial proporcionado pelo cenário externo estará sujeito a reversões rápidas.

O ano eleitoral: O catalisador da volatilidade

As eleições de outubro de 2026 são o catalisador conjuntural por excelência. Historicamente, anos eleitorais no Brasil seguem uma curva de volatilidade cambial bem definida: relativa estabilidade no primeiro trimestre; aumento progressivo entre abril e julho; pico de estresse no terceiro trimestre; e acomodação pós-eleitoral.

Neste ciclo, porém, a antecipação do debate começou ainda no final de 2025, a confirmação de candidaturas provocou movimentos de até 3% no câmbio em questão de dias. A polarização elevada sugere uma disputa apertada, mantendo o prêmio de risco alto por período mais prolongado que o habitual.

O que torna o fator eleitoral particularmente relevante é a percepção do mercado sobre o comprometimento fiscal do próximo governo. Caso o cenário aponte para uma política econômica que não priorize o equilíbrio das contas públicas, o dólar poderá subir expressivamente.

Em sentido inverso, candidaturas percebidas como reformistas podem produzir valorização significativa do real. Como bem sintetizou um gestor ouvido pelo mercado: o patamar da cotação ao final do ano estará diretamente ligado ao resultado das eleições.

A gestão cambial do BC: Redução de swaps e linhas diante do fluxo positivo

Um vetor frequentemente subestimado nas análises de câmbio, mas de importância capital para o funcionamento do mercado, é a gestão dos instrumentos cambiais pelo Banco Central. Os dados são reveladores: até 13 de fevereiro de 2026, o fluxo cambial acumulado no ano está positivo em US$ 6,556 bilhões, com o canal financeiro respondendo por US$ 6,041 bilhões em entradas líquidas.

Em janeiro, a entrada líquida foi de US$ 5,067 bilhões. Esse fluxo robusto reflete a combinação de um diferencial de juros ainda extremamente atrativo, a Selic a 15% contra juros americanos em queda e o enfraquecimento global do dólar.

Diante desse cenário de liquidez favorável, o Banco Central sinaliza a possibilidade de reduzir sua posição em contratos de swap cambial e em linhas de crédito em moeda estrangeira. A lógica é direta: quando há abundância de fluxo de dólares entrando no país, a necessidade de o BC atuar como provedor de hedge e liquidez no mercado futuro diminui.

A redução do estoque de swaps, que chegou a patamares superiores a US$ 100 bilhões, e das linhas com compromisso de recompra (que totalizaram US$ 17 bilhões entre o final de 2024 e início de 2025) representa uma normalização da atuação da autoridade monetária.

A estratégia, que envolve operações “casadas”, venda de dólares à vista conjugada com swaps reversos, tem o objetivo triplo de tornar o real mais atrativo, reduzir o cupom cambial (a taxa de juros em dólar no Brasil, que havia disparado) e enxugar gradualmente a posição do BC em derivativos.

A direção da política monetária, sob Gabriel Galípolo, já sinalizou que o nível do estoque de swaps deve cair quando as condições permitirem.

Para o câmbio, esse movimento tem implicações ambíguas. No curto prazo, a redução de swaps e linhas pode ser lida como um voto de confiança do BC na sustentabilidade do fluxo positivo, o que tende a fortalecer o real.

Porém, caso ocorra uma reversão abrupta dos fluxos, seja por choque geopolítico, escalada tarifária ou turbulência eleitoral, o BC terá menor “colchão” de proteção previamente posicionado, o que pode exigir intervenções de emergência mais custosas e com maior impacto na volatilidade.

É, portanto, uma aposta calculada de que o ambiente benigno de fluxos se manterá, aposta que, como todas no câmbio, carrega riscos.

A política monetária e o carry trade

A Selic, atualmente em 15%, deverá iniciar um ciclo de cortes ao longo do ano, o consenso do Boletim Focus aponta para 12,25% ao final de 2026. Paralelamente, o Federal Reserve segue em normalização.

O diferencial de juros sustentou a valorização do real em 2025 (mais de 11% frente ao dólar), mas à medida que a Selic recua e o spread diminui, a atratividade relativa do Brasil para o capital especulativo tende a se reduzir.

A grande questão é o ritmo e a percepção dos cortes: se o mercado interpretar que o BC está reduzindo juros de forma precipitada, especialmente em ano eleitoral, a credibilidade da autoridade monetária poderá ser questionada, com impacto direto no câmbio.

A previsão: O dólar no final de 2026

Feita a ressalva indispensável de que qualquer projeção cambial carrega margem de erro considerável, como acabamos de testemunhar com a decisão da Suprema Corte, apresento minha avaliação para a cotação do real frente ao dólar ao final de 2026.

  • Cenário-base (50% de probabilidade): Dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,50. Pressupõe manutenção da fraqueza global do dólar; ciclo de redução da Selic ordenado; eleições com desfecho percebido como favorável à responsabilidade fiscal; tarifas americanas substitutivas com impacto limitado; e fluxo cambial positivo sustentado, permitindo ao BC seguir reduzindo swaps e linhas sem estresse.
  • Cenário otimista (20%): Dólar entre R$ 4,90 e R$ 5,20. Materializável caso o Congresso americano bloqueie novas tarifas; o resultado eleitoral aponte para agenda reformista crível; e os fluxos para emergentes se intensifiquem.
  • Cenário pessimista (30%): Dólar entre R$ 5,60 e R$ 6,00. Associado a escalada na guerra comercial; deterioração acentuada das contas públicas; resultado eleitoral desfavorável ao ajuste fiscal; ou choque geopolítico de grandes proporções que inverta fluxos e exponha a redução do colchão cambial do BC.

Projeção pontual: Considerando a ponderação probabilística destes cenários, o fato de o Focus manter-se em R$ 5,50 há 18 semanas consecutivas, o efeito estruturalmente favorável da decisão da Suprema Corte para moedas emergentes, o fluxo cambial robusto que permite ao BC normalizar sua posição em swaps e linhas, e o diferencial de juros que, mesmo em queda, permanecerá atrativo, minha estimativa central para o dólar ao final de dezembro de 2026 é de R$ 5,40, com viés ligeiramente baixista em relação ao consenso de mercado.

Considerações Finais

O ano de 2026 será definido pela interação entre forças poderosas e frequentemente contraditórias: a fraqueza global do dólar versus a fragilidade fiscal brasileira; o carry trade atrativo versus a redução da Selic; a decisão histórica da Suprema Corte versus a determinação de Trump em manter barreiras comerciais; o fluxo cambial positivo que permite ao BC enxugar swaps versus o risco de reversão abrupta em cenário de estresse; e a esperança reformista de parcela do eleitorado versus a polarização que alimenta o populismo fiscal.

O investidor prudente faria bem em assimilar a seguinte lição: não se trata de adivinhar onde estará o dólar em dezembro, mas de se preparar para a amplitude de cenários possíveis.

A volatilidade não é uma anomalia; é a condição natural de um mercado que reflete, em tempo real, todas as esperanças e medos de uma economia globalizada.

E se a última sexta-feira nos ensinou algo, é que o inesperado tem o hábito inconveniente de bater à porta exatamente quando acreditamos tê-lo excluído de nossas projeções.

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