
Desde que tornei-me um investidor, várias denominações oriundas do vocabulário animal vieram até mim. Como escritor que sou – muito antes de aprender a lidar com o mercado – surpreendi-me com o significado de algumas.
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As duas primeiras foram o bull e o bear market. Fiquei imaginando o porquê de que o touro significaria ser um mercado em ascensão e o urso, a queda. Confesso que não consegui decifrar logo de início. Visto que o urso é um animal com mais predicados (corre, sobe em árvores, pesca, nada, come de tudo) do que o touro. Apesar da força e imponência ser uma característica de ambos, além da agressividade quando necessária.

Aí percebi que era pelo movimento corporal dos dois. O touro ao atacar, faz um amplo movimento para cima com a sua cabeça e chifres. E o urso ataca de cima para baixo com as suas garras. Também existe uma história antiga sobre peles que eram vendidas sem ainda terem sido coletadas, esperando uma queda de valor no mercado. Mas eu fico com a primeira explicação.

Para os mais curiosos, recomendo a visão do icônico quadro de William Holbrook Beard de 1897, que fica em exposição no Museu Smithsonian de Nova Iorque, no Central Park.

Mas… e o polvo? Que intitula esse artigo? De onde ele vem?
Bem, diante dos três termos mais comuns que depois tive contato, que são as sardinhas, que exemplificam respectivamente os pequenos investidores, incapazes de sozinhos moverem o mercado. As baleias, grandes corporações, grupos de multimercado, bancos, que influenciam diretamente o mercado, mas de quando em vez aparecem boiando na superfície, em sofrimento. E os tubarões que se assemelham as baleias, mas que se alimentam das sardinhas e sempre vencem. Vi que muitas pessoas simplesmente não se encaixam nessas três rasas e binárias definições. O primeiro tem pouco dinheiro e é inicialmente um neófito. Muitas vezes tratado pejorativamente. E o segundo as vezes lento e o terceiro implacável, ambos movimentam bilhões. Não existiria alguém entre esses dois mundos?
Por exemplo, um investidor qualificado, com mais de um milhão no seu portfólio, prossegue sendo sardinha. E se chegar a ser um profissional, ou seja, com mais de dez milhões, ainda assim não é um tubarão ou uma baleia. Pois para influenciar verdadeiramente o mercado é necessário muito mais dinheiro. Porém eu pergunto: e quem está neste limbo de um a dez milhões? Seria qual animal aquático?


O Polvo!
Animal invertebrado mais inteligente do mundo. Com uma memória prodigiosa e grande capacidade de aprendizado. O investidor polvo, sabe o que quer. Ele consegue se comunicar no árduo linguajar, o “economês”, de seu assessor financeiro e opina com convicção. Não vive disso, mas precisa crescer e depois conservar seu patrimônio financeiro. Para um dia desfrutar as marés da aposentadoria.

Capaz de sacrificar um braço (ele tem oito) de sua reserva financeira, pois possui um bom colchão de segurança que o permite viver de 3 a 6 meses sem sua renda habitual. É plástico, visto que se adapta a várias circunstâncias rapidamente (as surpresas do mercado, tais como os cisnes negros talebianos, que nada mais são do que fenômenos econômicos imprevisíveis). Também é um caçador pois identifica o fluxo e boas oportunidades, mas sem arriscar muito. Usa o seu bico para seccionar os ativos e ingeri-los de acordo com sua necessidade.

Uma vez atacado solta sua tinta que despista o olfato de tubarões e também não deixa que as baleias vejam por onde ele vai (apesar de que essas não são predadoras). Sabe se mimetizar, de acordo com o ambiente. Em momentos críticos, não faz absolutamente nada. Descansa seus tentáculos e depois investe. Não é impulsivo.

Tem reservas em ouro e derivativos – que sábia, mas tardiamente, descobriu que são proteção e não risco – e não se deixa entusiasmar com novidades do mercado. Jamais é o primeiro a comprar algo novo, mas também não é o último. Acredita em ciclos e marés. Defende a diversificação. Apoia investimentos em moeda forte. Já se desvencilhou do “home bias”, que é premência de investir a maioria do seu porfólio em seu país de origem.

Enfim, capaz de aprender e ter humildade suficiente de saber que errou. O famoso “stop curto”. Descuidou-se, movimenta-se em diferente direção. Sentem dor psicológica, pois são humanos e factíveis a enganos. Seus dois sentidos mais desenvolvidos são a visão e o toque físico. Não só ver, mas experimentar. Sentir. Compõe o masculino e o feminino juntos.

Acredito que existam muitos polvos no mercado. E rogo que se identifiquem e ajudem as sardinhas e também os grandões. Para que o cardume não siga sendo enganado por falácias e falsos gurus. E que os gigantes ajudem o meio ambiente, pois eles precisam das sardinhas para movimentar as águas.

E que um dia, tornando-se esse cefalópode, canditado ao equilíbrio, perceba que só existe um único caminho para ter a felicidade financeira. Perceber que cada um pode e deve escolher o seu destino, possuindo exatamente o que julga. Nem mais, nem menos. O suficiente.
JB Alencastro





