Encerra-se o mês de abril de 2026 com uma conjuntura econômica global ainda em estado de “extrema fragilidade resiliente”. Contextualizar esse conflito entre Estados Unidos e Irã exige olhar além do campo de batalha: o verdadeiro rastro de destruição reside na infraestrutura energética.
A destruição de mais de 40 plantas petroquímicas em sete países, incluindo centros estratégicos como Mahshahr e Assaluyeh, não representa apenas uma perda de ativos comerciais, mas uma ruptura estrutural na produção global de polímeros, plásticos e fertilizantes.
Essa paralisia força diversos países a buscarem importações emergenciais, desencadeando uma das maiores crises de oferta na história recente.
O impacto é severo: a perda de 15 milhões de toneladas anuais de capacidade produtiva, somada ao fechamento parcial do Estreito de Ormuz, por onde transita 20% do petróleo mundial, retirou 10 milhões de barris diários do mercado, elevando o preço do barril a picos de US$ 113.
Mais do que uma oscilação passageira de preços, enfrentamos uma mudança estrutural no regime de expectativas econômicas. Ao consolidar-se no horizonte de 2026, esse cenário introduz um “imposto geopolítico” que se infiltra na estrutura de custos, altera permanentemente a tomada de decisão dos agentes econômicos e desafia a estabilidade global.
A análise econômica do conflito entre Estados Unidos e Irã revela que o impacto não é apenas uma oscilação passageira de preços, mas uma mudança estrutural no regime de expectativas nas economias e em especial na economia americana.
Mesmo que estabelecidos acordos de paz, entre EUA-Irã-Israel, que permitam uma “trégua política”, o rastro de destruição econômica tende a permanecer por um período prolongado.
A interrupção de capacidade produtiva em dezenas de plantas petroquímicas significa que a normalização de fluxos de petróleo, gasolina, diesel e químicos industriais não ocorrerá de forma simétrica ao encerramento das hostilidades, gerando um vácuo de oferta que pode sustentar preços mais altos pelos próximos meses.
Nesse contexto, bancos centrais enfrentam um trade-off entre a necessidade de combater a inflação ancorada em choques de oferta e a preservação do crescimento, levando-os a priorizar a manutenção de juros reais positivos e de orientação cautelosa, em vez de cortes rápidos.
A principal via de transmissão para a economia americana é o choque de oferta nos mercados de energia. Dado o papel crítico do Estreito de Hormuz como gargalo logístico global, a interrupção das rotas marítimas atua como um choque negativo de produtividade. Mais do que a variação de preço, enfrentamos uma ruptura estrutural.
A região é responsável por 40% das exportações globais de ureia e 28% de amônia; o salto nos custos de fertilizantes, que subiram de US$ 516 para US$ 683 por tonelada em apenas uma semana no porto de Nova Orleans, impõe uma pressão inflacionária direta sobre o agronegócio global.
O aumento dos custos de combustíveis, gasolina ultrapassando US$ 4 por galão e o diesel atingindo patamares superiores a US$ 5,60, gera um pass-through inflacionário imediato.
Contudo, o impacto de longo prazo é grave e eleva os custos de transporte e de insumos industriais (como plásticos e produtos químicos), pressionando o núcleo da inflação (core inflation) e tornando o processo de desinflação do Federal Reserve significativamente mais penoso.
A deterioração das perspectivas de crédito, citada por agências de rating, sugere que a guerra está sobrecarregando o balanço fiscal americano. A combinação de gastos militares recordes com a necessidade de subsidiar ou mitigar os impactos internos do custo de vida coloca uma pressão adicional sobre o déficit público.
Em um cenário onde o Fed ainda precisa manter taxas de juros em patamares restritivos para ancorar as expectativas inflacionárias, o custo de carregamento da dívida torna-se um fator limitante para a expansão fiscal.
A tensão reside no fato de que o otimismo recente dos mercados, que parece ignorar parte da pressão fiscal, apoia-se em um crescimento da atividade econômica que superou as expectativas iniciais.
Contudo, trata-se de um crescimento que enfrenta um nítido desequilíbrio: impulsionado por um consumo das famílias sustentado por estímulos e massa salarial, enquanto o gross fixed capital formation (formação bruta de capital fixo) permanece contido por juros estruturalmente elevados.
Para países como o Brasil, isso reverbera em toda a cadeia, de insumos básicos a proteínas animais, criando um efeito de segunda ordem que transcende o setor energético e se infiltra em bens de consumo e eletrônicos.
O cenário econômico brasileiro ao término do 2Q2026 apresenta uma configuração singular, caracterizada por um paradoxo entre a robustez do balanço comercial energético e a persistente fragilidade da trajetória fiscal e inflacionária.
A análise da conjuntura atual revela como o choque exógeno provocado pelo conflito no Oriente Médio atua simultaneamente como propulsor de receitas e catalisador de riscos macroeconômicos estruturais.
O recorde no superávit do setor de petróleo no 1Q2026 ilustra a posição do país como um net exporter de energia em um mercado global com supply chain tensionada. O aumento nos preços internacionais do barril (Brent) gerou um efeito de windfall significativo, incrementando a arrecadação de royalties e participações governamentais.
Sob a ótica das contas externas, este excedente tem sido fundamental para mitigar a deterioração da balança comercial que, de outra forma, seria pressionada pela valorização dos insumos importados, particularmente os fertilizantes, cujas cadeias produtivas são diretamente afetadas pela instabilidade na região do Golfo.
Apesar do alívio pontual na balança comercial, a sustentabilidade fiscal permanece como o principal headwind para o crescimento do PIB.
Embora o incremento nas receitas extraordinárias provenientes do petróleo forneça um fôlego de curto prazo, estimativas indicam um potencial aumento na casa das dezenas de bilhões de reais para o caixa da União, há um hiato crescente entre a arrecadação e a rigidez das despesas correntes.
Entretanto, os reflexos desse conflito sob as economias, nos levam a uma reflexão sobre quem ganha, quando ganha (e a que preço) um conflito.
Mas também levam órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Agência Internacional de Energia (AIE) a revisarem suas projeções em decorrência de um choque de oferta sem precedentes no Oriente Médio, cujos efeitos econômicos são superiores à pacificação diplomática ao deixar um rastro estrutural de custos elevados que desafiará o mandato de estabilidade de preços dos principais bancos centrais pelos próximos três trimestres.
A variável mais preocupante não é apenas a inflação, mas a incerteza. Relatórios recentes do FED destacam que a guerra tornou-se a fonte primária de dúvida para o setor corporativo.
- Adiar decisões de CapEx: Investimentos em novos projetos de capital fixo estão sendo postergados, prejudicando o crescimento potencial.
- Reconfigurar cadeias de suprimento: A transição do modelo just-in-time para estratégias de just-in-case aumenta os custos operacionais de forma permanente.
Os dados de PMIs de abril revelam uma economia global operando em duas velocidades distintas, enquanto o setor de serviços demonstra resiliência, a manufatura sofre contrações significativas, estrangulada pela ruptura nas cadeias de suprimentos de energia e insumos químicos.
Esse cenário é marcado por petróleo atingindo picos de US$ 113 por barril no mercado físico, e projeta um repique preocupante na inflação ao consumidor (CPI) ao longo do 2Q26.
Indicadores de atividade reforçam essa tendência de desaceleração gradual. Nos Estados Unidos, o crescimento atingiu o menor patamar em 10 meses; na Zona do Euro, o PMI composto de 50,7 reflete um setor de serviços em arrefecimento (50,2), mal compensado pela estabilidade manufatureira.
Com o FMI mantendo a projeção de crescimento global em 3,1% para 2026, o quadro é de uma atividade pressionada pela escalada das commodities e por condições financeiras que se tornam estruturalmente mais restritivas.
Em mercados emergentes, como o Brasil, a atividade ainda mostra resiliência, mas com projeções de crescimento ligeiramente reduzidas e maior dispersão de riscos externos, conforme destacado no último Relatório de Política Monetária do BCB.
Em conjunto, esse quadro indica que a demanda interna segue firme em alguns blocos, mas sem aceleração suficiente para reduzir rapidamente a inflação por conta própria, obrigando os bancos centrais a manter juros em patamares elevados por mais tempo.
A inflação global em 2026 permanece acima dos alvos em muitas economias, com a energia e os preços de commodities como principal fator de pressão.
Esse dano gera um choque estrutural em preços, com volatilidade no óleo acima de US$ 85/barril persistindo meses devido à reconstrução lenta de infraestrutura, afetando petroquímicos (nafta, etileno) e elevando custos em energia, frete e bens intermediários globalmente.
Os bancos centrais devem estar preparados diante de cenários de up side inflation (acima de baseline em 0.4pp no PIB global), priorizando vigilância quanto a second-round effects e comunicação hawkish para ancorar expectativas, possivelmente adiando cortes ou reintroduzindo hikes se o conflito prolongar.
A análise mais crítica deste mês residiu na distinção entre acordos de paz e recuperação econômica. Embora as negociações diplomáticas no Oriente Médio tragam alívio imediato aos prêmios de risco nos mercados de futuros, o dano físico à infraestrutura é um “game changer” para a inflação de longo prazo.
Os dados de abril sugerem pausas (ou ajustes hawkish) para as próximas reuniões, com os bancos centrais passando a tratar o episódio não mais como um choque transitório de energia, mas como um Shock estrutural, cabendo então ajustar suas políticas para um cenário onde a oferta global é permanentemente mais cara.
A orientação para os investidores é de que o “custo do dinheiro” (juros) permanecerá alto para compensar essa ineficiência produtiva global.
A paz encerra o conflito dos mísseis e a destruição de complexos, mas o “imposto inflacionário” da reconstrução será pago pelos próximos trimestres através de uma política monetária que não poderá se dar ao luxo de ser expansionista tão cedo.
Encerra-se o mês com 3 premissas básicas:
- Qualquer acordo de paz deve ser visto como alívio de risco geopolítico, mas não como normalização imediata das cadeias de suprimento. O risco de que o choque de energia e petroquímica se arraste por vários trimestres é real.
- Os bancos centrais devem manter a orientação de “juros altos por mais tempo”, favorecendo ativos com menor sensibilidade à volatilidade.
- Nossa expectativa não apenas para a próxima rodada de reuniões de política monetária por parte dos bancos centrais, mas certamente para um período de 120–150 dias é de que as autoridades monetárias ainda estarão coletando, planilhando e entendendo, de fato, os impactos de tais desdobramentos sobre suas respectivas economias.
Considerando que, ao encerrarmos o segundo trimestre, os Bancos Centrais encontram-se diante de uma decisão complexa de política monetária frente a um choque de oferta:
- Inflação: A pressão sobre o custo do diesel e da energia, reflexo direto do patamar do petróleo, impõe riscos de contágio inflacionário que ameaçam ancoragem das expectativas em relação à meta.
- Atividade: A necessidade de manter uma postura restritiva para conter a inflação de custos colide com a desaceleração esperada para o 2H2026, exacerbando o risco de estagflação caso os preços energéticos permaneçam em patamares elevados.
- Câmbio: A volatilidade cambial, alimentada pelo cenário geopolítico, eleva o prêmio de risco de ativos locais, encarecendo o financiamento da dívida pública.
O que se presencia em abril de 2026 não é apenas um choque transitório, mas uma reconfiguração da base de custos da economia global.
O ‘imposto geopolítico’ derivado da reconstrução e da ineficiência produtiva forçará investidores e formuladores de política monetária a abandonarem a expectativa de retornos rápidos à normalidade pré-crise.
Em um cenário onde a oferta é permanentemente mais cara, a disciplina será o diferencial: para os Bancos Centrais, o compromisso com a inflação exige vigilância redobrada contra efeitos de segunda ordem; para o mercado, o ambiente de juros elevados impõe uma seleção rigorosa de ativos, priorizando a resiliência operacional sobre o otimismo cíclico.
O novo normal não é apenas a paz diplomática, mas a adaptação a uma estrutura de custos estruturalmente mais elevada.
Ao se olhar para o término deste 2Q e do 1H2026, esperamos que os bancos centrais se mantenham restritivos e, em especial na economia americana, a troca de comando do FED não crie um desafio complementar de coordenação.
O risco é que o país entre em um regime de “crescimento lento com inflação persistente” (estagflação), onde a política monetária, por si só, é insuficiente para neutralizar um choque que é, em sua essência, estrutural e geopolítico.
A capacidade de retomada dependerá menos de ajustes cíclicos e mais da velocidade com que o sistema produtivo global conseguirá se adaptar a uma nova geografia de riscos, onde a segurança energética e a proteção das rotas comerciais passaram a ocupar o topo da hierarquia de prioridades das empresas e governos.
Assim esperamos que a ação dos bancos centrais seja:
Receba Informações do Mercado Financeiro em Tempo Real. Entre para nossa Comunidade no Whatsapp!!!
Federal Reserve (Fed – EUA):
Com a inflação persistindo acima de 2,5% e um choque de energia projetado para elevar preços por mais de um ano, espera-se que o Fed mantenha a taxa de juros no patamar de 3,5%–3,75% durante a maior parte de 2026. A possibilidade de cortes é mínima, restringindo-se, no máximo, a uma única redução, a depender da severidade dos efeitos inflacionários de segunda ordem.
Banco Central Europeu (ECB – Zona do Euro):
Com a inflação (HICP) próxima a 2,5% e pressionada pelos custos de energia, a tendência é a manutenção da taxa de juros em 2%. O BCE deve sinalizar um viés cauteloso, buscando equilibrar o combate à inflação com a necessidade de evitar uma deterioração acentuada do crescimento e do mercado de trabalho.
Banco da Inglaterra (BoE – Reino Unido):
Frente a uma inflação (IPC) em torno de 3,0%, o mercado alterou drasticamente suas expectativas, precificando “nenhum corte” para 2026. A autoridade monetária deve adotar uma postura de espera prolongada.
Banco do Japão (BoJ – Japão):
Operando sob uma clara dominância fiscal — com uma dívida/PIB de 250% e em um ambiente de juros reais negativos (taxa nominal em 0,75%), o BoJ enfrenta o desafio de normalizar a política monetária sem comprometer a estabilidade fiscal. Há uma alta probabilidade de um novo aumento de 25 pontos-base já em abril.
No caso do Brasil, o otimismo com a economia neste momento não deve ser interpretado como uma melhora nos fundamentos fiscais de longo prazo, mas sim como uma resiliência operacional diante de um cenário global adverso.
A performance dos próximos meses dependerá, em última instância, da capacidade do setor público em não converter as receitas temporárias do petróleo em novos gastos permanentes, e da habilidade da autoridade monetária em manejar o pass-through da inflação de combustíveis sem comprometer a estabilidade do produto.
A resiliência do PIB observada até aqui é um ativo valioso, mas a transição para o 3Q2026 exigirá uma ancoragem mais firme das expectativas para que o atual otimismo não se revele, prematuramente, uma percepção distorcida da realidade.
Banco Central do Brasil (BCB):
Com a inflação projetada acima do centro da meta para 2026 e um crescimento moderado (1,6% – 1,8%), o BCB deve interromper o ciclo de afrouxamento gradual que vinha sendo sinalizado. A expectativa é de revisão da estratégia, com a manutenção dos juros em patamares restritivos durante todo o segundo semestre de 2026 (2H2026).
Por fim, o dilema atual da política monetária reflete a complexidade do cenário econômico e geopolítico. Por um lado, elevar juros não parece ser a resposta ideal, já que o pano de fundo da crise difere substancialmente do choque energético de 2022. Cada expectativa de alta de taxas incorporada pelos mercados aperta as condições financeiras e ameaça o crescimento.
O risco, entretanto, é de credibilidade. Se os bancos centrais não agirem, investidores podem interpretar isso como falta de firmeza, o que poderia levar a uma escalada das expectativas inflacionárias. A memória de reações tardias no passado pesa sobre as decisões atuais, e discursos de “choques transitórios sucessivos” revelam a preocupação de não repetir erros históricos.
Ainda assim, experiências anteriores de Bancos Centrais em 2008, 2011 e a partir de 2021 mostram que aumentos pontuais de juros, em meio a crises, podem resultar em recuos rápidos e constrangedores.
Nesse contexto, a estratégia mais prudente parece ser manter todas as opções abertas, sinalizando a possibilidade de aperto sem permitir que os mercados extrapolem em suas projeções.
A comunicação torna-se crucial, mas nem sempre eficaz. O exemplo de A. Bailey, no Reino Unido, mostra que mesmo declarações firmes podem ser ignoradas quando variáveis externas, como o preço do petróleo, dominam a formação das expectativas.
Assim, qualquer movimento relevante exigiria surpresa e coragem, algo difícil em tempos de elevada incerteza geopolítica.
Roberto Simioni
Economista – Chefe
Troon Capital




