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Entre Ormuz e Washington: O Novo Choque Geopolítico de 2026

Regarding war, “Terrain can be classified into six categories: accessible, entrenched, temporary, narrow, intimate, and distant.” – Sun Tzu in The Art of War “Quanto ao terreno, pode ser classificado em seis categorias: acessível, insidioso, de travessia, estreito, acidentado e distante.” – Sun Tzu em A Arte da Guerra Neste final de semana iniciou-se a […]

Regarding war, “Terrain can be classified into six categories: accessible, entrenched, temporary, narrow, intimate, and distant.” – Sun Tzu in The Art of War

“Quanto ao terreno, pode ser classificado em seis categorias: acessível, insidioso, de travessia, estreito, acidentado e distante.” – Sun Tzu em A Arte da Guerra

Neste final de semana iniciou-se a esperada ação americana sobre o Irã, “Epic Fury Operation”, que revela uma fundamentação doutrinária que sustenta as decisões táticas e políticas observadas na escalada de tensão entre 2025 e 2026.

Assistir às notícias pelos veículos de mídia sobre o conflito do outro lado do planeta pode ser algo para se fazer no final de semana, já que a olimpíada de inverno infelizmente acabou, mas o problema é grave e com reflexos políticos e econômicos que entrarão nos lares de boa parte da população global, caso os desdobramentos do conflito se estendam.

E como destacado na frase de Sun Tzu sobre a guerra, “o terreno pode ser classificado em seis categorias: acessível, entrincheirado, temporário, estreito, íntimo e distante.”

A analogia que traço nas próximas linhas descreve em parte esse pensamento pelos diferentes ângulos geopolítico e geoeconômico, do início de uma guerra em um país cujo agressor não possui autorização política (do US Congresso) em seu próprio país para uma ação de invasão “boot on the ground” a um país cuja topografia é “pouco acessível”, a resistência é “entrincheirada”, expõe a economia global a um “estreito” econômico na questão energética, tem por objetivo alterar o “íntimo” da administração do regime político adversário de um país que é “distante” e que, mesmo usando de um poder bélico poderoso, pode gerar um conflito “não temporário”, como visto em seu histórico militar no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão (à época com aprovação legal do Congresso).

O enfoque transita entre a teoria da dissuasão clássica e uma redefinição do papel da hegemonia militar no século XXI, afastando-se do internacionalismo liberal em direção a um realismo transacional e cinético.

O teor dessas reflexões fornece a base ideológica para a operação em curso, uma aplicação de poder que ignora os protocolos de consulta legislativa e multilateral em favor de uma ação unilateral baseada na eficiência cinética e no choque psicológico.

Para a economia, essa postura introduz uma volatilidade institucional significativa, pois as regras de engajamento deixam de ser previsíveis e passam a depender da percepção subjetiva do Executivo sobre o que constitui uma “ameaça iminente”, alterando permanentemente o cálculo de risco para investidores e Estados na periferia do conflito.

Há alguns anos crescem as críticas à burocracia das organizações internacionais e aos tratados de não proliferação que, na visão exposta, apenas ofereceriam cobertura para que regimes adversários avancem em suas capacidades balísticas.

Assim, apesar de negociações diplomáticas, a Administração Trump preferiu o custo imediato de uma operação de alta intensidade ao custo prolongado de uma contenção diplomática ineficaz que permite ao oponente atingir a paridade tecnológica ou nuclear.

Politicamente, dentro da América, a dimensão institucional trazida pela resolução de poderes de guerra dos deputados Ro Khanna e Thomas Massie introduz uma camada de incerteza política.

A divergência entre o Executivo (atuando via prerrogativas de “ameaça iminente”) e o Legislativo (exigindo aprovação constitucional) pode gerar volatilidade nos títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries). Se o conflito se transformar em uma guerra de ocupação ou mudança de regime prolongada, o custo fiscal será massivo.

Como apontado por Massie, o conceito de “America First” entra em conflito direto com os custos de oportunidade de um conflito de larga escala em um país de 90 milhões de habitantes.

O multiplicador fiscal de gastos militares tende a ser menor do que investimentos em infraestrutura produtiva no longo prazo, e o financiamento dessa operação, em um contexto de dívida pública já elevada, pode pressionar as taxas de juros de longo prazo (curva de rendimentos), elevando o custo de capital para o setor privado.

No centro do tabuleiro de opções e a partir das premissas necessárias para que a atual Administração Trump buscasse a estabilidade global não mais pela diplomacia multilateral, mas pela resolutividade inabalável de ações que redefinam o quadro geopolítico e geoeconômico global, pesou a escolha da ação militar, o foco da “Paz através da Força”, onde a capacidade de destruição é utilizada como a principal ferramenta de negociação.

Militarmente, isso se traduz em uma doutrina de “Destruição Estratégica”: o objetivo não é ocupar território, mas degradar a infraestrutura de comando, controle e defesa a tal ponto que o custo de manutenção do regime atual se torne insustentável.

Essa abordagem busca mitigar os riscos fiscais e políticos internos (o cansaço da opinião pública com guerras intermináveis) ao mesmo tempo em que projeta um poder letal capaz de neutralizar ameaças transcontinentais.

E, como se sabe, a soberania de um adversário é condicional ao seu comportamento internacional, e que a intervenção militar deve ser rápida, devastadora e desprovida de obrigações humanitárias ou administrativas subsequentes.

A Operação Epic Fury, conduzida pelos Estados Unidos com apoio de Israel, tem sido objeto de intensas análises internacionais, que se dividem quanto à sua capacidade de atingir os objetivos políticos e militares propostos.

A imprensa global e os principais think tanks de segurança e geopolítica avaliam que, embora o sucesso militar seja plausível no curto prazo, os desdobramentos políticos e sociais apresentam riscos elevados e de difícil controle.

No campo militar, a inquestionável superioridade aérea americana complementada pelo apoio aéreo israelense, somada à degradação das defesas iranianas, torna provável a neutralização de alvos estratégicos. Há uma possibilidade que em até 48 horas de operação entre 60% e 70% das instalações nucleares (em especial em Natanz e Fordow) sejam neutralizadas.

No campo do objetivo político, a mudança de regime é uma incógnita, pois mesmo que haja a morte dos principais membros do regime, não se sabe quem ou como se dará essa troca de poder, muito menos quais as garantias de estabilidade pós troca.

A Administração Trump aposta em uma mudança política a partir do quadro de revolta no íntimo da população (insurreição doméstica favorável aos EUA), com força para derrubar o regime. Porém, a depender do tamanho do uso da força, e da duração da operação, com impactos principalmente sobre a infraestrutura básica do país (não apenas as bases militares ou nucleares), o efeito pode ser reverso, com um “efeito rally-around-the-flag”, fortalecendo os aiatolás diante da agressão externa.

A questão do ataque tem múltiplos alvos, e o enfoque político-militar se desloca para a gestão do “pós-ataque” e a filosofia de engajamento. A rejeição absoluta ao modelo de nation-building (construção de nações) que caracterizou os conflitos do início do século.

Politicamente, defende-se que a responsabilidade pela governança interna deve recair exclusivamente sobre as populações locais, utilizando a pressão militar externa como um catalisador para o colapso de regimes autocráticos, sem o comprometimento de recursos fiscais e humanos em ocupações prolongadas.

Em paralelo, a coalizão xiita em países como Iraque e Líbano pode mobilizar proxies regionais contra bases americanas, embaixadas de países em diversos pontos (não apenas no Oriente Médio) o que amplia o conflito para além das fronteiras iranianas, um terreno nebuloso de desdobramentos.

No campo do mercado financeiro, onde tempo é dinheiro, o desdobramento no tempo pode levar o investidor a se entrincheirar em operações defensivas ou buscar hedge para posições em andamento. O sistema petrodólar, baseado na precificação global do petróleo em dólares americanos, enfrenta tensão imediata com interrupções no Estreito de Ormuz, por onde passa 35% do fluxo marítimo de petróleo.

Ataques à infraestrutura iraniana (como a Ilha de Kharg, responsável por 3,3 milhões de bpd) podem elevar prêmios de risco nos contratos futuros de Brent e WTI, fortalecendo o USD como ativo refúgio, mas pressionando Treasuries e elevando yields de longo prazo em um cenário de dívida fiscal dos EUA já elevada.

Se retaliações fecharem rotas, a inelasticidade da demanda global (com estoques OPEP limitados) ameaça a hegemonia do petrodólar, incentivando aceleração de desdolarização por China e Índia via renminbi ou rupee em swaps energéticos.

A “Operação Epic Fury” introduz choques significativos na estabilidade do sistema petrodólar e na substitutibilidade técnica das refinarias asiáticas para óleo iraniano, ampliando riscos macroeconômicos em um contexto de incerteza radical.

Efeitos na Inflação – A elevação do petróleo tem efeito direto sobre os custos de transporte e energia, repercutindo em toda a cadeia produtiva. Esse movimento pressiona a inflação mundial e dificulta a atuação dos bancos centrais.

O Federal Reserve, por exemplo, pode adiar cortes de juros para conter o avanço dos preços. Organismos multilaterais como o FMI e a OCDE já revisaram para baixo suas projeções de crescimento global, e o risco inflacionário decorrente do conflito reforça esse cenário de desaceleração.

O conflito entre Estados Unidos e Irã transcende o campo militar e se projeta diretamente sobre a economia mundial. A combinação de petróleo mais caro, inflação pressionada e mercados financeiros instáveis compõe um quadro de maior incerteza global.

Países exportadores de commodities podem colher ganhos pontuais, mas o efeito agregado tende a ser negativo para o crescimento econômico, reforçando a necessidade de políticas de contenção e diversificação de riscos.

Refinarias asiáticas, como as da China (Zhejiang e Dalian) e Índia (Reliance Jamnagar), são otimizadas para óleos médios iranianos, com craqueamento catalítico avançado que processa até 20% de blends pesados do Golfo Pérsico.

Diferente do petróleo venezuelano pesado, o iraniano tem alta substitubilidade técnica e 85% das capacidades asiáticas adaptam-se sem retrofit imediato, mas os custos de frete e seguros podem subir entre 30-50% com riscos de guerra, deslocando curvas de oferta inelásticas.

Em um bloqueio prolongado, estoques estratégicos asiáticos mitigam escassez por 60-90 dias, mas a dependência de 4,5% da produção OPEP iraniana força bids agressivos por Brent, elevando preços para US$100-130/barril e inflação importada na Ásia emergente.

Do ponto de vista da economia da energia, o evento representa um risco sistêmico sem precedentes recentes. A centralidade do Estreito de Ormuz é o fator determinante: com aproximadamente 13 milhões de barris por dia (bpd) transitando pela região em 2025, o que equivale a cerca de 31% do fluxo global de petróleo por via marítima, qualquer interrupção física ou aumento nos custos de seguro (frete e risco de guerra) desloca a curva de oferta global de forma inelástica para a esquerda.

Diferente do “choque Venezuela” mencionado, onde a substitubilidade do petróleo pesado é tecnicamente complexa mas geograficamente contida, o petróleo iraniano e o fluxo do Golfo Pérsico possuem uma relevância estrutural para a formação de preços globais.

O anúncio de ataques retaliatórios contra instalações nos Emirados Árabes Unidos e Catar sinaliza que a infraestrutura de produção de parceiros da OCDE também está sob ameaça, o que pode forçar um prêmio de risco persistente nos contratos futuros de Brent e WTI, superando as máximas de seis meses e possivelmente testando níveis de resistência histórica.

Historicamente, os mercados têm demonstrado resiliência a ataques pontuais (como o de junho de 2025 mencionado no texto). No entanto, a escala da “Epic Fury”, envolvendo ataques simultâneos a centros urbanos como Teerã, Isfahan e retaliações em bases aéreas vitais (Al Udeid e Al Dhafra), sugere uma assimetria de informação onde os agentes ainda não conseguem calcular o downside risk total.

Se o Irã concretizar a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz ou se a infraestrutura de extração for fisicamente danificada, entraremos em um cenário de escassez física que transcende a mera especulação financeira.

Entretanto, em breve os mercados estarão abertos e é possível que haja uma reação clássica de “fuga para a qualidade” (flight to quality). O fortalecimento do USD, do JPY e, como de costume, do ouro, refletindo a busca por ativos de reserva em tempos de guerra.

O Federal Reserve tem em mãos mais um argumento para iniciar qualquer movimento de corte de juros apenas para dentro do 2H2026, ganhando tempo para entender possíveis impactos sobre a inflação.

A magnitude do ataque, visando inclusive o programa nuclear e a marinha iraniana, sugere que o mercado não precificará este evento como um “choque transitório”, mas como uma mudança estrutural na geopolítica do Oriente Médio.

No campo econômico, o Estreito de Ormuz surge como o maior risco econômico e estratégico. O Irã decretou fechamento parcial, o que afeta próximo de 35% do fluxo global de petróleo, e já provocou alta de 15% no Brent em 24 horas.

Caso haja um bloqueio total poderia elevar o barril acima de US$ 120, já que operações de retirada de minas podem levar de 3 a 6 meses. Ainda que a 5ª Frota dos EUA teria capacidade de reabrir parcialmente a rota em até 72 horas, entretanto, nem tudo é uso de força bruta e resta saber se os navios carregados irão se arriscar a passar pela zona de conflito, o que impacta o fornecimento de Oil & Gas, eleva custos de frete, seguro e tempo na operação.

Fechar o estreito pode ainda ser uma medida complexa ao Irã, que depende em 90% das exportações pelo canal, o que torna o bloqueio uma medida de autolesão econômica. A assimetria iraniana-asiática agrava estagflação global. A Ásia pode absorver choque de oferta via reservas, mas Europa (refinarias para óleo leve) sofre mais, ampliando divergências monetárias (Fed vs. BCE).

Para o Brasil, alta exportadora (Petrobrás para Ásia) beneficia balança, mas repasse inflacionário em diesel pressiona BC com dólar forte.

A economia dos EUA já enfrenta um cenário de pressões latentes devido à política de tarifas de 15% sobre todas as importações. A sobreposição de um choque de custos energéticos a uma política comercial protecionista cria um ambiente propício para a estagflação.

O aumento nos preços dos combustíveis e derivados petroquímicos atua como um imposto regressivo sobre o consumo, enquanto as tarifas de importação elevam os custos de insumos industriais.

Na prática, está-se diante de um cenário de potencial choque de oferta negativo e exógeno sobreposto a uma política comercial já restritiva (tarifas de 15%). A fundamentação teórica e os desdobramentos para se projetar as consequências desse ato podem ser pensados da seguinte forma.

Considerando uma função de produção agregada onde a energia (E) é um insumo essencial e complementar ao capital (K) e trabalho (L):
Y = f(K, L, E)

Em um modelo de equilíbrio geral (utilizado pelos principais bancos centrais), a elasticidade-preço da demanda por petróleo no curtíssimo prazo é extremamente baixa (\u03B5d \u2212 0.1 a -0.2). Uma interrupção de 20% do fluxo de Hormuz (aprox. 2.6 milhões de bpd, ou 2.5% da oferta global) resultaria em um salto de preços desproporcional.

Assim, de modo simples, a partir do modelo Hamilton sobre choques de petróleo, o impacto no PIB não é linear. A persistência do conflito por semanas altera as expectativas do preço P\u2076oil (preço esperado), deslocando a curva de Oferta Agregada (OA) para um quadro de redução:

\u03C0 = \u03C0\u03B5 + \u03A3 (y – \u03C5) + \u03BD

Onde \u03BD representa o choque de custos. Com o conflito se estendendo, \u03BD deixa de ser um ruído e passa a ser uma mudança de patamar, pressionando a inflação e contraindo o hiato do produto simultaneamente.

O que torna o fator tempo o maior inimigo da operação americana. A economia entra em uma zona de estagflação estrutural. Se o Fed mantiver o foco no mandato de inflação, a taxa de juros real terá que subir em um momento de contração de atividade, exacerbando a recessão.

O “Prêmio de Hormuz” não reflete apenas a escassez física, mas o risco de cauda a partir da possibilidade ainda que temporária de uma interrupção total.

É esperada alguma valorização do USD e do JPY, mas com uma ressalva: se os EUA forem percebidos como sobrecarregados fiscalmente (dada a escala da “armada” e operações em múltiplos países), o prêmio de risco nos Treasuries pode subir (efeito crowding out), elevando a curva de juros longa.

A falta de aprovação do Congresso e a retaliação iraniana em bases nos Emirados e Catar geram mais uma camada de incerteza que não pode ser precificada por distribuições normais. Isso paralisará o Investimento (I) via teoria das opções reais (esperar para ver).

O cenário de 2026 é único devido à interação entre o choque de energia e as tarifas de 15% impostas pela administração Trump, uma vez que as tarifas já elevaram o custo marginal de bens importados. O choque de energia atua como um segundo imposto sobre a oferta.

Se a interrupção de 20% persistir por mais de um mês, podemos então ter desdobramentos mais graves:

  • Ruptura de GVCs (Cadeias de Valor Globais): O custo do frete marítimo (Baltic Dry Index) dispararia devido à zona de exclusão aérea/naval no Golfo.
  • Efeito Renda: A transferência de riqueza de países importadores para exportadores de petróleo seria mitigada pela destruição de demanda interna nos próprios países do Golfo sob ataque.
  • Arbitragem Geopolítica: Países como Rússia e produtores do pré-sal brasileiro veriam um aumento súbito nas receitas de exportação, mas seriam afetados pela inflação global de bens manufaturados.

O que pode levar a uma situação economicamente mais delicada:

Brent/WTIupside
Baixa elasticidade e prêmio de guerra.(25-40%)
PIB Globaldown side (0.5% a 1.2%)- Choque de oferta e queda no consumo discricionário.
Inflação (CPI)Increase – Repasse de custos logísticos e energéticos + tarifas.
Dívida/PIB (EUA)decrease – Custo de mobilização da “Epic Fury”.

No caso do Brasil, o impacto do prolongamento da Operação Epic Fury e da interrupção de 20% no fluxo do Estreito de Hormuz sobre a economia brasileira deve ser analisado através da decomposição dos choques de oferta e dos canais de transmissão de política monetária e cambial.

O Brasil, embora exportador líquido de petróleo, possui uma estrutura de preços e uma matriz de custos que o torna vulnerável a episódios de volatilidade geopolítica extrema.

Preços do Petróleo e a Balança Comercial – O impacto imediato ocorre no preço do barril (Brent), que, dada a baixa elasticidade-preço da demanda no curtíssimo prazo, pode tender a ser esticado para patamares próximos a US$ 100-120.

Para o Brasil, isso gera um efeito distributivo assimétrico. Do lado da conta capital e comercial, há um incremento nas receitas de exportação da Petrobras e de outras operadoras do pré-sal, o que teoricamente fortaleceria a balança comercial.

Todavia, esse ganho é mitigado pelo custo de importação de derivados (gasolina e diesel) e, crucialmente, de fertilizantes e insumos químicos, cujos preços guardam correlação direta com a energia global. A persistência do conflito por semanas consolida um novo patamar de custo marginal de produção para a indústria e o agronegócio brasileiro.

IPCA e o Repasse de Preços (Pass-through) – A transmissão para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) ocorreria por três vias principais. Primeiro, o canal direto dos combustíveis: mesmo com a atual política de preços da Petrobras visando mitigar volatilidades, uma interrupção de 20% no fluxo de Hormuz é um evento de cauda impossível de ser totalmente absorvido sem repasse às bombas, sob risco de comprometer a saúde financeira da estatal e gerar desabastecimento.

E em momentos de incerteza radical, o fluxo de capitais migra para ativos de reserva (USD), pressionando a taxa de câmbio BRL/USD. A desvalorização do Real encarece bens comercializáveis (tradables), pressionando a inflação de curto prazo.

O efeito secundário na logística e transportes, que espalha a pressão inflacionária para alimentos e serviços. Em um cenário de conflito prolongado, as expectativas inflacionárias para 2026 e 2027 sofreriam um desancoragem severa.

SELIC e a Reação da Política Monetária – O Comitê de Política Monetária (COPOM) se veria diante de um clássico dilema de choque de oferta. Embora a teoria sugira que o Banco Central não deva reagir a choques transitórios, a persistência do ataque por semanas e a magnitude do aumento do petróleo transformam o choque em um fenômeno de “primeira e segunda ordem”.

Expectativas e Risco: A alta do dólar aliada à incerteza sobre o custo da energia exigiria uma postura mais “hawkish” (contracionista). A taxa SELIC, que poderia estar em trajetória de estabilidade ou queda, precisaria ser elevada para conter a fuga de capitais e evitar que a inflação de custos se transforme em uma espiral de preços-salários.

Hiato do Produto: O aumento da SELIC em um momento de contração da renda real (devido aos combustíveis caros) aprofundaria o hiato do produto negativo, elevando o risco de uma recessão técnica no Brasil. O custo do serviço da dívida pública também subiria, pressionando o quadro fiscal e fechando um ciclo de feedback negativo sobre a confiança dos investidores.

A avaliação no momento é que a “Epic Fury” pode (e irá) alcançar vitórias militares pontuais, mas enfrentará barreiras quase intransponíveis no plano político. O fechamento de Ormuz representa o maior risco imediato para a economia global, enquanto o prolongamento da operação aumenta a probabilidade de revolta popular e de escalada regional.

O cenário, portanto, combina sucesso tático com incerteza estratégica, reforçando a percepção de que os custos da intervenção podem superar em muito seus benefícios.

No caso do Brasil, o país sofreria um choque estagflacionário, com potencial para o IPCA ser impulsionado tanto pelo choque de custos energéticos quanto pelo câmbio, enquanto a SELIC permaneceria em patamares elevados por mais tempo (ou subiria) para garantir a ancoragem das expectativas e a estabilidade da moeda.

O benefício do aumento das receitas de exportação de óleo bruto não seria suficiente para compensar a perda de bem-estar social decorrente da inflação e do encarecimento do crédito, dada a alta dependência do país do transporte rodoviário e da importação de derivados e insumos básicos.

ROBERTO SIMIONI
Economista – Chefe
Blue3 Investimentos – Troon Capital

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