Se pudéssemos escolher uma palavra para definir o atual momento seria “quanto”. Sim, quanto tempo vai durar todas as guerras em andamento e quanto será o custo político, financeiro, comercial, operacional, logístico, humanitário e etc. ao final de tudo isso.
Atualmente a incerteza toma conta. Por exemplo, não se pode estimar como fica a extração, refino e trânsito de Oil & Gas no estreito de Ormuz a partir de agora, nem quanto tempo será necessário para que os primeiros dados de inflação de custo e ao consumidor possam ser capturados pelos indicadores dos Bancos Centrais.
Pior que isso, outras perguntas continuarão a pairar no ar sem respostas: Por quanto tempo esses indicadores de inflação serão contemplados na coleta de dados? Será que o impacto perdurará por dois ou três meses (shock temporário) ou por mais de 3 meses (um shock estrutural) caso o brent se mantenha acima de USD $95?
No curto prazo, o que se pode esperar é que a inflação e os preços de energia serão os canais mais visíveis de transmissão; no médio prazo, a interação entre política doméstica fragilizada, risco eleitoral e reação dos mercados financeiros pode amplificar os efeitos adversos sobre crescimento e estabilidade financeira.
A resolução rápida dos conflitos reduziria substancialmente esses riscos, mas a persistência das hostilidades colocaria os decisores perante escolhas difíceis entre credibilidade anti-inflacionária e suporte ao crescimento, com custos elevados para a economia global caso a incerteza se prolongue.
Os dados do PPI (Índice de Preços ao Produtor) divulgados hoje indicam que a demanda final registrou um aumento de 0,5% para 0,7% em fevereiro, levando o acumulado de 12 meses a registrar 3,4%, representando a maior variação anual desde fevereiro de 2025.
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Esse resultado reflete pressões inflacionárias persistentes, com destaque para o setor de serviços, que respondeu por mais de 50% da alta mensal, ao crescer 0,5%. No caso dos bens, os preços avançaram 1,1%, maior alta desde agosto de 2023, impulsionados principalmente por um salto de 48,9% nos preços de vegetais.
Também contribuíram para a elevação os aumentos em diesel. O núcleo do PPI, que exclui alimentos, energia e serviços de comércio, subiu 0,5% em fevereiro, marcando o décimo aumento consecutivo, e acumula alta de 3,5% em 12 meses.
Esse cenário indica que os custos de produção continuam em trajetória de alta, com repasses significativos ao consumidor final. A persistência dessas pressões inflacionárias reforça a necessidade de atenção da política monetária, já que o Federal Reserve pode ser levado a manter uma postura restritiva para conter a inflação.
Além disso, os choques de preços em alimentos e energia seguem como fatores determinantes para a volatilidade do índice, aumentando a incerteza sobre o comportamento futuro da inflação e seus impactos sobre consumo, investimentos e atividade econômica.
O Federal Reserve optou pela manutenção da taxa de juros em 3,50% a 3,75%, uma decisão amplamente antecipada, mas cercada por um cenário de incertezas sem precedentes.
O comunicado oficial e as Projeções Econômicas Trimestrais (SEP) revelaram que o FED tenta equilibrar o impacto inflacionário da guerra no Irã com uma expectativa de mudança estrutural de preços na economia americana, ou seja, incorpora um cenário de continuidade de preços altistas no Oil & Gas que podem afetar a inflação ao longo do ano, deixando um potencial “boom” de produtividade ser impulsionado pela Inteligência Artificial.
Ainda assim, (e pela 6ª vez), a decisão não foi unânime, o diretor S. Miran dissentiu, defendendo sua orientação política optando por um corte de 0¼%, alegando um olhar mais preocupado em relação aos sinais de fragilidade no mercado de trabalho. No entanto, o comitê majoritário preferiu o conservadorismo, especialmente após a escalada dos preços do petróleo e o fechamento do Estreito de Ormuz terem elevado as expectativas de inflação de curto prazo.
O Fed revisou sua projeção do índice PCE para o final de 2026 de 2,4% para 2,7%, admitindo implicitamente que a meta de 2% só deve ser atingida de forma sustentável em 2027. O ponto intrigante da reunião foi a revisão para cima do PIB potencial (de 1,8% para 2,0%) e da taxa neutra de juros (de 3,0% para 3,1%).
Essas mudanças sugerem que a autoridade monetária está acreditando que os investimentos em tecnologia e IA estão elevando a capacidade produtiva do país. Isso permitiria que a economia crescesse a taxas sólidas sem gerar pressões inflacionárias excessivas no longo prazo, o que explica por que o “gráfico de pontos” (dot plot) ainda sinaliza um corte de juros este ano, apesar da inflação resiliente. No entanto, a credibilidade do Fed caminha sobre uma linha tênue.
Após sucessivos anos falhando em atingir a meta, a narrativa de que a inflação atual é novamente “transitória“, desta vez causada por choques exógenos como tarifas e guerras, enfrenta ceticismo nos mercados.
Olhando para Abril/25, mês da próxima reunião, é factível afirmar que a decisão do Federal Open Market Committee (FOMC) de manter a taxa de juros no intervalo de 3,50% a 3,75% não foi apenas um “dovish hold” protocolar e sim foi o reflexo de um Banco Central que tenta calibrar sua política em um ambiente de ruídos geopolíticos extremos e mudanças estruturais na oferta agregada.
Ao navegar entre o choque inflacionário decorrente do conflito no Irã e a revisão altista do PIB potencial para 2,0%, o Fed sinaliza que sua função de reação está agora realmente ancorada em uma aposta de longo prazo: o boom de produtividade derivado da Inteligência Artificial.
Sob a ótica desse modelo, a dinâmica atual sugere uma persistência maior da inflação do que a precificada inicialmente pelo consenso de mercado. E, com o PCE projetado em 2,7% para o fim de 2026 e a inflação de serviços ainda resiliente, a modelagem estatística impõe uma restrição severa a cortes imediatos.
Embora o Fed tenha mantido a sinalização de cortes no dot plot, a análise técnica das matrizes de variância-covariância indica que o espaço para flexibilização em junho ou setembro é estatisticamente estreito, dada a necessidade de observar a exaustão do choque de oferta.
Um fator determinante para a tese de um corte único de 0,25% em outubro de 2026 é o comportamento das variáveis financeiras endógenas. O fortalecimento do DXY (acima de 2%) e a elevação dos yields das Treasuries de 10 anos funcionam como um aperto monetário sintético.
Assim, a resposta da taxa de juros a um aperto nas condições financeiras e a um aumento no VIX é, frequentemente, a postergação de movimentos expansionistas. O mercado, ao precificar o risco geopolítico, já realizou o equivalente a um aumento residual na taxa de juros, permitindo ao Fed adotar uma postura de “paralisia vigilante”.
Acreditamos, a partir de modelos econométricos e dos dados até agora disponíveis, que a revisão da taxa neutra (r*) para 3,1%, com indicação de um crescimento potencial da economia ocorrendo ainda que mediante juros nominais mais elevados sem entrar em recessão profunda, graças aos ganhos de eficiência tecnológica.
A princípio, o Federal Reserve parece disposto a ignorar a volatilidade imediata dos preços de energia para evitar um colapso no mercado de trabalho, que já mostra sinais de fadiga com quedas nas folhas de pagamento.
A aposta é alta, o Fed confia que a eficiência tecnológica compensará os custos da guerra, mantendo o plano de iniciar a flexibilização monetária ainda em 2026. Esse cenário de “ajuste fino” ganha contornos políticos com a transição de liderança entre Jerome Powell e Kevin Warsh. A incerteza jurídica e o processo de sucessão tendem a aumentar a inércia decisória, favorecendo um movimento de cautela.
É também possível que haja um corte de juros em outubro/26. A convergência entre a desaceleração marginal do mercado de trabalho (evidenciada pelos payrolls fracos de fevereiro/26) e a esperada descompressão dos preços de energia no segundo semestre aponta para outubro como a “janela de oportunidade” técnica.
Um corte isolado de 25 pontos-base em outubro de 2026 serviria como um ajuste de manutenção, validando a tese de que a inflação, embora persistente, retomou sua trajetória de convergência, sem comprometer a credibilidade da autoridade monetária frente aos choques de custo remanescentes.
No Brasil, e tal como esperado, a 277ª reunião do Comitê de Política Monetária optou por um corte na taxa de juros. No entendimento do COPOM, o ambiente econômico global tornou-se mais incerto com a intensificação dos conflitos geopolíticos no Irã, o que tem força de alterar as condições financeiras internacionais e aumentado a volatilidade nos preços de ativos e commodities.
Esse cenário exige maior cautela por parte das economias emergentes, que ficam mais expostas a choques externos e à instabilidade dos mercados. Os indicadores apontam para uma trajetória de moderação do crescimento econômico, ainda que o mercado de trabalho demonstre resiliência.
O IPCA e as respectivas medidas de núcleo apresentaram alguma melhora recente, mas continuam ainda acima da meta estabelecida. As expectativas de inflação para 2026 e 2027, segundo a pesquisa Focus, permanecem desancoradas em 4,1% e 3,8%, respectivamente, enquanto as projeções do Copom para o terceiro trimestre de 2027 estão em 3,3% no cenário de referência.
Os riscos para o cenário inflacionário se intensificaram com os conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta, destacam-se a possibilidade de um período mais prolongado de desancoragem das expectativas, a resiliência maior do que o esperado da inflação de serviços e o impacto de políticas internas e externas que possam levar a uma moeda mais depreciada.
Por outro lado, os fatores que apontariam possibilidade de novas reduções, incluem uma desaceleração mais intensa da atividade doméstica, uma recessão global mais acentuada e a queda nos preços das commodities.
Ainda assim, e diante de um quadro que ainda não capturou em seus dados qualquer alteração dos preços a partir do início do conflito, o COPOM decidiu reduzir a taxa Selic para 14,75% ao ano, avaliando que a manutenção prolongada de juros em patamar contracionista já produziu efeitos sobre a desaceleração da atividade econômica.
A decisão busca garantir a convergência da inflação para a meta, ao mesmo tempo em que suaviza flutuações econômicas e favorece o emprego.
O Comitê reforçou a postura cautelosa, destacando que os próximos passos da política monetária dependerão da evolução dos conflitos no Oriente Médio e de seus impactos sobre cadeias globais de suprimentos e preços de commodities.
A elevada incerteza sobre a duração e intensidade desses choques torna o ambiente econômico mais complexo, exigindo serenidade na condução da política monetária para equilibrar o objetivo de estabilidade de preços com a necessidade de preservar a atividade econômica.
Esse contexto revela uma economia brasileira em transição, com crescimento moderado, inflação ainda resistente e política monetária “calibrada” para enfrentar choques externos e internos, em um ambiente global marcado por riscos elevados e imprevisibilidade.
Entretanto, diferente da realidade norte-americana, onde o Federal Reserve tenta se equilibrar entre o choque de oferta e ganhos de produtividade via IA, o modelo brasileiro apresenta uma sensibilidade muito maior à relação petróleo-USD.
Considerando em nosso modelo um choque de +1 desvio padrão nos preços do Brent (negociado acima de $115 e não de US$95, como nosso cenário base), teríamos uma resposta imediata e persistente no IPCA, não apenas pelo impacto direto nos combustíveis, mas pelo expressivo pass-through cambial.
Com o fortalecimento global do dólar (DXY) e a busca por portos seguros, que elevou o preço do ouro e comprimiu o apetite por ativos emergentes, o Real sofreu uma depreciação que atua como um acelerador inflacionário de bens comercializáveis.
As funções de impulso resposta para o Brasil indicam que a persistência inflacionária tende a ser mais “viscosa” do que nos mercados desenvolvidos. Enquanto o Fed revisou sua taxa neutra (r*) para cima devido ao crescimento potencial, o BCB enfrenta uma taxa neutra elevada pela incerteza fiscal e pelo prêmio de risco país.
Isso explica por que, estatisticamente, o Copom foi forçado a reduzir o ritmo de cortes, a volatilidade do câmbio e a desancoragem das expectativas para 2027 (agora em torno de 4,1%) exige que o diferencial de juros permaneça “largo” o suficiente para conter a fuga de capitais.
Uma análise comparativa entre a decisão de hoje e a postura do FOMC revela uma divergência fundamental na gestão de riscos. Enquanto os EUA operam sob a premissa de que a eficiência tecnológica pode mitigar a inflação de custos, o Brasil lida com um hiato do produto que, embora resiliente, está sob pressão de gargalos logísticos e custos financeiros.
A decomposição da variância no modelo BVAR para o cenário atual atribui um peso crescente à trajetória da dívida pública e à incerteza geopolítica como os principais determinantes da volatilidade da Selic.
Dessa forma, a possibilidade de ocorrer apenas um ou dois cortes residuais de 0,25 p.p. até o final de 2026 ganha robustez estatística.
O Banco Central parece ter internalizado que o custo de “errar para baixo”, permitindo uma desvalorização descontrolada do Real em um momento de petróleo caro, seria infinitamente maior do que o custo de manter uma política levemente restritiva por mais tempo. Novamente, somente o tempo dirá se teremos condição de novos cortes e em qual magnitude no COPOM e possivelmente também no FOMC.
Roberto Simioni
Economista – Chefe
Troon Capital




