O início das operações “Epic Fury” e “Roaring Lion”, há pouco mais de 72 horas, marca o colapso da política de contenção que regeu as relações com o Irã nas últimas décadas.
A transição para uma estratégia de “mudança de regime forçada”, a partir da morte de grande parte da liderança teocrática e de Ali Khamenei em particular, introduz uma volatilidade institucional extrema.
Do ponto de vista militar, a operação do lado americano coordena ações a partir de suas 36 (trinta e seis) instalações no Oriente Médio, como as bases de Al Udeid (Catar), o quartel-general da 5ª Frota no Bahrein e bases para caças F-22/F-15E na Jordânia e Israel, além dos 2 porta-aviões (USS Abraham Lincoln e USS Gerald R. Ford), com F-35C, Super Hornets e tanques aéreos, posicionados no Golfo Pérsico, Mar Vermelho e Mediterrâneo para strikes de longo alcance e controle marítimo, concentrando uma presença naval e aérea massiva sobre o Irã, visando conter ou eliminar o alto comando iraniano, destruir o programa nuclear iraniano e potenciais lançadores de mísseis balísticos e instalações militares.
As forças israelenses (IDF), operando de bases como Ovda (Sul de Israel), focam em teatros simultâneos de Gaza, Líbano e Irã, priorizando defesas multidimensionais, com ênfase em manobras rápidas, fogo preciso e ataques profundos para neutralizar ameaças existenciais.
Essa cooperação tática projeta um poder assimétrico, com EUA fornecendo suporte naval/aéreo e Israel manobras precisas, em meio a tensões regionais com fechamento de espaços aéreos do Golfo.
De outro lado, sem capacidade de uma resposta à altura, as ações do Irã ao atingir a infraestrutura civil e petrolífera em Estados vizinhos (Arábia Saudita, EAU, Catar) buscam a internalização dos custos do conflito pelos aliados ocidentais na região.
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Geopoliticamente, isso visa fraturar a coalizão liderada pelos EUA através da pressão econômica direta sobre as monarquias do Golfo, que agora enfrentam o dilema entre a segurança provida pelos EUA e a integridade de seus ativos de capital físico (refinarias, portos e plantas de dessalinização).
Entretanto, o ponto central não é apenas a destruição física de ativos militares, mas a criação de um vácuo de poder soberano.
Sem uma autoridade central clara e com o país sob um conselho fragmentado, o risco de uma “líbanização” do Irã aumenta o prêmio de risco geopolítico de médio-longo prazo, transformando uma economia de 85 milhões de pessoas em um território de insurgência e fluxos informais de armas e energia.
O anúncio feito pelo corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) do Irã do fechamento do Estreito de Ormuz (ou pelo menos a sua tentativa) representa o “risco de cauda” mais severo para a economia global.
Com risco de interrupção do fornecimento de Oil&Gas pelo estreito, de pelo menos 20% do consumo global da commodity, cria uma onda de incerteza para as economias e os mercados para os próximos dias, dada a inelasticidade “forçada” da oferta que não pode ser compensada no curto prazo.
Pensando no preço do Petróleo, no caso do Brent, a perda dos 1,5 milhão de bpd iranianos (predominantemente direcionados à China via Ilha Kharg), mas o risco sistêmico sobre os 20 milhões de bpd que transitam por Ormuz, pode sim provocar um deslocamento de preço para próximo de US$95 nos próximos dias.
Ainda que a Arábia Saudita possua capacidade de desvio via East-West Pipeline para o Mar Vermelho, a ameaça dos Houthis no sul (Bab el-Mandeb) cria um estrangulamento logístico duplo. A liberação de Reservas Estratégicas (SPR) nos EUA, embora necessária, encontra um estoque 35% inferior aos níveis de 2021, limitando a capacidade de intervenção do governo para achatar a curva de preços.
No caso do Gás Natural e GNL, a dinâmica do mercado de gás torna o cenário ainda mais delicado para Europa e Ásia. A interrupção dos fluxos vindos do Catar, em um mercado já bastante ajustado, pode levar o TTF (Title Transfer Facility, que é o principal índice de referência para os preços de gás natural da Europa) a patamares entre EUR 80 e 100/MWh.
E, diferentemente do petróleo, a arbitragem de GNL é limitada pela infraestrutura de liquefação e regaseificação, o que sugere que o choque no gás pode ter efeitos mais duradouros (e persistentes), com reflexos sobre a produção industrial europeia.
Quanto à capacidade ociosa e a produção de Shale, a decisão da OPEC+ de aumentar a produção é insuficiente diante da magnitude do conflito, especialmente porque no momento, a maior parte dessa “capacidade ociosa” do grupo está justamente dentro do raio de alcance dos mísseis iranianos no Golfo Pérsico.
A alternativa do US Shale Gas também não oferece uma solução imediata ao choque de oferta, dado o lead time de 6 a 12 meses para novos volumes significativos.
No mercado, é possível que a partir do fechamento de hubs logísticos como Dubai e Doha possamos ter uma paralisação do comércio de alto valor agregado, levando a uma recuperação do preço de ativos mais defensivos, dentre eles, as tradicionais alocações em ouro e USD, o que pune economias emergentes com alta dívida denominada em moeda estrangeira.
Olhando para a economia americana, a injeção de estímulos fiscais no momento em que a oferta é restringida por choques geopolíticos e tarifas comerciais é uma receita para o superaquecimento.
Se a inflação se deslocar rumo a 3,5%, desancorando as expectativas, o Fed deveria abandonar qualquer plano de corte de juros e possivelmente agir de forma restritiva, aumentando novamente os juros.
Contudo, essa subida das taxas em um ano eleitoral tem impactos políticos negativos, e a troca de comando no Federal Reserve reserva uma incerteza (além do trocadilho) quanto à capacidade que seu potencial futuro chairman (K. Warsh) poderia suportar pressões políticas, o que cria uma incerteza ainda maior quanto ao risco de perda gradual da independência da autoridade monetária, o que poderia levar a uma inclinação acentuada (steepening) da curva de juros (Yield Curve).
Assim, a convergência desse choque de oferta com o risco de reversão da trajetória inflacionária reforça a sensação de uma potencial estagflação.
Os EUA são exportadores líquidos de petróleo desde 2019; o choque tem um efeito ambíguo no PIB, mas um efeito inequívoco nas expectativas de inflação dos consumidores, que são altamente sensíveis aos preços na bomba e na inflação de serviços.
De forma prática, à medida que nos aproximamos do final do 1Q2026, o quadro de uma “inflação de breakeven” pressionada pela possível alta do WTI nos próximos dias pode atuar como catalisador do aumento de inflação de segunda ordem, podendo levar o atual presidente da autoridade monetária (J. Powell) e seus diretores, dentro de uma orientação “Data Dependent”, a postergar um novo corte de juros na reunião de março, postergando a seu sucessor (K. Warsh) a responsabilidade de fazê-lo, uma prova de “fogo” para a reunião em maio/26.
Aos poucos, o que se vivencia é uma mudança forçada na arquitetura política e uma interrupção do fluxo de Oil&Gas mantido pelo regime iraniano desde 1979, que reintroduz uma volatilidade inflacionária como variável persistente.
O risco para as próximas semanas pode não ser apenas de preço do barril, mas da previsibilidade de oferta a partir da obstrução de rotas comerciais, levando os Bancos Centrais a novos desafios em relação a suas respectivas metas de inflação, que agora operam em um ambiente onde a geopolítica dita a política econômica de forma coercitiva.
Roberto Simioni
Economista – Chefe
Blue3 Investimentos – Troon Capital





