Um novo estudo da FGV EAESP mostra, com números, algo que o brasileiro sente há anos no mercado: cada movimento do dólar mexe diretamente com o nosso custo de vida — e muito mais do que a maior parte dos investidores imagina.
Assinado por Claudia Emiko Yoshinaga, Francisco Henrique Figueiredo de Castro Junior, Ricardo Ratner Rochman e William Eid Junior, o trabalho “O impacto cambial no consumo dos brasileiros e a necessidade de diversificação internacional” quantifica quanto da nossa cesta de consumo é, na prática, dolarizada — e qual deveria ser o mínimo de patrimônio no exterior para proteger esse poder de compra.
Receba Informações do Mercado Financeiro em Tempo Real. Entre para nossa Comunidade no Whatsapp!!!
O brasileiro investe em reais… mas consome em dólar
O ponto de partida do estudo é o “viés doméstico”: a tendência de concentrar quase tudo em ativos locais.
Segundo dados da Anbima compilados pelos pesquisadores, apenas 1,56% do patrimônio dos fundos brasileiros de renda fixa, ações e multimercados está hoje aplicado no exterior.
Ao mesmo tempo, o Brasil importa, em média, 10,1% do que consome, considerando a participação das importações no PIB entre 2013 e 2023. E não são apenas os produtos claramente “gringos” que entram nessa conta. Em torno de 10% a 25% da cesta de consumo dos brasileiros é direta ou indiretamente influenciada por bens e insumos importados.
Na prática, o dólar está embutido em:
- Eletrônicos, celulares e computadores
- Veículos e autopeças
- Combustíveis
- Medicamentos e insumos farmacêuticos
- Trigo e derivados (pães, massas, biscoitos)
- Parte relevante de roupas, tecidos e marcas globais
Ou seja: ainda que a renda e a poupança estejam em reais, uma fatia considerável do nosso “carrinho do supermercado” está indexada à moeda americana.
Veja as recomendações, análises e preços alvo das empresas mais importantes dos Estados Unidos.
Como o câmbio “vaza” para a inflação das famílias
Para quantificar esse efeito, a FGV usou os índices de inflação por faixa de renda do Ipea, de 2006 a 2024, e aplicou uma metodologia de returns-based style analysis (Análise de Estilo) — técnica criada originalmente para entender a composição de fundos de investimento.
Os autores:
- Separaram a inflação em grandes blocos (alimentos, habitação, transporte, saúde, educação, etc.).
- “Limparam” desses índices o efeito direto do câmbio (ortogonalização).
- Regressaram a inflação de cada faixa de renda contra esses blocos + variação do dólar, considerando até 12 meses de defasagem.
O resultado mais importante:
A variação do câmbio quase não aparece no mês em que acontece, mas ganha força com atraso.
A quarta defasagem (cerca de 4 meses depois) é a que mostra correlação mais forte entre o dólar e a inflação por faixa de renda.
Os efeitos continuam aparecendo, ainda que diluídos, até cerca de um ano após o choque cambial.
Em outras palavras: quando o dólar dispara hoje, o bolso da família sente de forma mais clara ao longo dos próximos meses — via alimentos, combustíveis, remédios, serviços e assim por diante.
Quem sofre mais com o dólar alto?
Depois de separar os efeitos e somar todas as defasagens, o estudo estima quanto da inflação de cada faixa de renda é explicada pela variação cambial. O número é chocante:
- Renda Muito Baixa: 13,93%
- Renda Baixa: 13,88%
- Renda Média Baixa: 13,10%
- Renda Média: 12,84%
- Renda Média Alta: 12,03%
- Renda Alta: 11,07%
Ou seja: a inflação das famílias de menor renda é a que mais responde ao câmbio, justamente porque a cesta é mais concentrada em itens essenciais (comida, transporte, energia), todos com forte componente importado.
Quando os autores somam a isso os gastos de brasileiros no exterior — viagens e educação, que em 2023 somaram US$ 19,5 bilhões, concentrados nas faixas de renda média alta e alta — a exposição cambial dessas classes sobe para 14,68% e 13,72%, respectivamente.
A falsa sensação de proteção do Tesouro IPCA+
Um dos mitos que o estudo derruba é o de que investir em títulos indexados à inflação, como o Tesouro IPCA+, seria suficiente para se proteger do câmbio.
Comparando a variação do dólar com o retorno do Tesouro IPCA+ 2040 em janelas de 5 e 10 anos até agosto de 2024, a pesquisa mostra que:
Em 10 anos, o dólar acumulou 131,4%, contra 76,3% do Tesouro IPCA+.
Conclusão dos autores: IPCA não é hedge cambial. Ele protege contra a inflação oficial medida em reais — mas não contra a desvalorização da moeda frente ao dólar.
Se a sua cesta de consumo é parcialmente dolarizada e o seu patrimônio não é, você continua exposto.
Quanto, então, o brasileiro deveria ter dolarizado?
A partir da relação entre câmbio, inflação por faixa de renda, gastos no exterior e volatilidade da taxa R$/US$ nos últimos 10 anos (coeficiente de variação de 22,6%), o estudo chega à pergunta-chave: qual o mínimo de alocação em ativos no exterior que deixaria a cesta de consumo “neutra” à variação cambial?
A resposta:
- Faixa de renda com menor exposição (Renda Média): pelo menos 16% da carteira em ativos no exterior
- Renda Média Alta: cerca de 18%
- Renda Alta: perto de 17%
Mesmo as faixas de renda mais baixas deveriam ter algo em torno de 16% a 17% dolarizado, apenas para neutralizar o impacto do câmbio sobre o custo de vida.
Os autores destacam que essa faixa de 16% a 18% seria apenas a “dolarização de defesa”: o nível mínimo para proteger o padrão de consumo. Dentro de uma estratégia completa de investimentos, que considere diversificação setorial, acesso a empresas globais, tecnologia, saúde, etc., a participação internacional tende a ser maior.
Da teoria à prática: o que significa “dolarizar o patrimônio”?
Na prática, transformar esse diagnóstico em ação passa por incluir no planejamento financeiro ativos atrelados a moedas fortes — principalmente ao dólar. Alguns exemplos:
- Fundos cambiais e multimercados com exposição ao dólar
- ETFs e fundos de ações globais (EUA, Europa, Ásia, mercados desenvolvidos)
- BDRs e ações de empresas internacionais listadas lá fora
- Veículos estruturados ou contas de investimento no exterior, quando fizer sentido para o tamanho do patrimônio e o perfil de risco
Mais do que “apostar no dólar”, a lógica é casar o lado do investimento com o lado do consumo: se uma parte relevante da sua vida — compras, viagens, educação, saúde, tecnologia — responde ao câmbio, faz sentido que uma parte do seu patrimônio também responda.
Por que isso importa agora
O estudo da FGV deixa claro dois pontos essenciais para o investidor brasileiro:
- O câmbio já está na sua vida, mesmo que você nunca tenha comprado um único ativo em dólar. Ele entra na conta de luz, no pão francês, no remédio, no combustível e no celular novo.
- Ignorar a diversificação internacional é aceitar uma queda silenciosa do poder de compra sempre que o real se desvaloriza.
Para quem constrói patrimônio no longo prazo, não se trata apenas de buscar retorno — mas de proteger a capacidade de manter o padrão de consumo no futuro.
Dolarizar parte da carteira, com planejamento, adequação de risco e orientação profissional, deixa de ser um luxo e passa a ser o que o próprio estudo define: uma necessidade para preservar o poder de compra do brasileiro em um mundo cada vez mais globalizado e cambialmente volátil.
Este conteúdo foi produzido com o apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisado por nossa equipe editorial





