Entre o Natal e o Ano Novo, surge a oportunidade de jogar em família não somente o Xadrez, mas também o “Go” e correlacionar as estratégias desses jogos à análise de cenário, pois a história dos jogos de tabuleiro é, em essência, a história da civilização traduzida em símbolos e estratégias.
O Go e o Xadrez representam os dois pilares fundamentais do pensamento estratégico humano, nascidos em contextos geográficos e filosóficos distintos que moldaram dinastias e impérios de suas respectivas épocas.
O Go, conhecido na China como Weiqi, é considerado um dos jogos mais antigos do mundo, com raízes que se estendem por mais de 2.500 anos. Sua origem está profundamente ligada à geografia do Leste Asiático e ao pensamento das Dinastias Zhou e Han.
Diz a lenda que o jogo foi inventado pelo Imperador Yao para ensinar prudência e equilíbrio ao seu filho, mas, historicamente, o Go floresceu como uma ferramenta de adivinhação e cosmologia. O tabuleiro, diferente do xadrez, contém 19×19 linhas e era visto como uma representação do universo, onde o centro era o “Coração do Céu” e as pedras pretas e brancas simbolizavam o Yin e o Yang.
Durante a Dinastia Tang, o Go atingiu seu ápice cultural, tornando-se uma das “Quatro Artes do Acadêmico Chinês”, essencial para qualquer burocrata ou oficial do império. Diferente do pensamento ocidental, o Go não exigia a morte do adversário, mas a ocupação harmoniosa do território.
A geografia da China antiga, vasta e cercada por fronteiras naturais, focava na coesão interna, espelhando-se no tabuleiro: o objetivo era o cerco, a expansão constante e a sobrevivência através da conexão.
Em contraste, o Xadrez possui uma trajetória geográfica mais errante e militarista. Embora sua forma moderna tenha sido refinada na Europa, suas raízes remontam ao Chaturanga, nascido na Índia do século VI, durante o Império Gupta.
O jogo era uma simulação direta de um exército indiano dividido em quatro partes: infantaria, cavalaria, elefantes e carruagens. Geograficamente, o Xadrez viajou pela Rota da Seda até o Império Persa Sassanida, onde se tornou Shatranj. Quando o Islã se expandiu pela Ásia Central e Norte da África, o jogo foi levado para a Península Ibérica e o restante da Europa. Ao contrário do Go, o Xadrez refletia uma estrutura social e militar rígida e hierárquica.
Nas cortes europeias e nas dinastias persas, o jogo era uma lição sobre a proteção do soberano. A morte do “Rei” (Shah Mat) era o fim absoluto, simbolizando a política de conquista direta, batalhas campais e a derrubada de dinastias vizinhas.
Enquanto o Go prosperava no isolamento relativo e na continuidade das dinastias imperiais chinesas, o Xadrez adaptava-se às constantes mudanças de fronteiras da Eurásia. Na China, o Go era o jogo da civilização contra a barbárie, onde as bordas do tabuleiro representavam os limites da influência imperial. Na Europa e no Oriente Médio, o Xadrez era o jogo da sucessão e do poder, onde cada peça tinha um valor de sacrifício para garantir a sobrevivência da coroa.
Essas origens históricas explicam por que, até hoje, as potências orientais tendem a ver a geopolítica como um cerco territorial de longo prazo (Go), enquanto as potências ocidentais veem o mundo como um tabuleiro onde peças-chave devem ser capturadas para garantir o domínio imediato (Xadrez). O Go, em meio a suas regras simples, permite possibilidades estratégicas vastas.
Não apenas o tabuleiro, mas as peças (pedras) são diferentes. O tabuleiro começa vazio e, diferente do xadrez, onde o objetivo é capturar o rei, no Go o objetivo é cercar o máximo de território possível.
O território é definido pelas intersecções vazias cercadas por pedras de uma única cor. De forma resumida, as pedras são jogadas nas intersecções das linhas (não dentro dos quadrados) e, uma vez colocada, a pedra não se move mais (a menos que seja capturada e removida).
Os jogadores alternam as jogadas, colocando uma pedra por vez. A captura e liberdades são os conceitos mecânicos centrais do jogo, enquanto as liberdades são os pontos vazios (norte, sul, leste, oeste) conectados a uma pedra ou grupo de pedras.
A captura ocorre quando o jogador cerca completamente uma pedra ou grupo do oponente, ocupando todas as suas “liberdades”; as pedras são removidas do tabuleiro e viram prisioneiros. Atari, diferente do videogame, é o termo usado quando uma pedra tem apenas uma liberdade restante (semelhante ao “xeque”).
Há regras fundamentais, e para se ter a Eternidade (“Ko”), é proibido que o jogador faça um movimento que retorne o tabuleiro exatamente ao estado anterior, evitando loops infinitos de captura. O jogo proíbe o suicídio, motivo pelo qual não se pode colocar uma pedra em um local onde ela não tenha liberdades, a menos que essa jogada resulte na captura imediata de pedras do oponente.
O fim do jogo ocorre quando ambos os jogadores passam a vez consecutivamente, concordando que não há mais territórios a conquistar ou capturas a fazer.
No xadrez, o objetivo não é buscar pontos ou território, mas tornar a posição do líder adversário insustentável. Para isso, o jogo possui estratégias que permitem ao jogador controlar pontos centrais, forçar ações para qualquer lado do tabuleiro e sacrificar uma peça de menor valor para ganhar uma posição dominante ou capturar uma peça maior.
Além disso, utiliza-se estratégias como o “Garfo” e o “Espeto”, cujas táticas levam uma única peça a atacar dois alvos simultaneamente, forçando o adversário a escolher qual perda sofrer. Por fim, o xeque força o adversário a reagir a um movimento seu, tirando-lhe a iniciativa.
A apuração de ganho entre os jogos também é diferente. No Go, soma-se as intersecções vazias cercadas e o número de prisioneiros capturados, quem tiver mais pontos vence.
No Xadrez, a vitória é absoluta e as peças têm funções específicas para um ataque direto. Alguma confusão ocorre ao misturar regras, mas, na essência, o Go contabiliza território e prisioneiros, enquanto o Xadrez exige a captura do rei para vitória.
Dito tudo isso, o que assistiremos em 2026 é um jogo com peças diferentes, regras distintas e cálculos não lineares. Tal como já vimos ocorrer em um evento de 30 de outubro de 2025 em Busan, os dois principais líderes geopolíticos continuarão jogando, mas cada qual de forma diferente e em um tabuleiro invisível, cujas peças pesam trilhões de dólares e movimentam frotas navais por oceanos estratégicos.
Este encontro em Busan não é meramente uma reunião de cúpula, mas o choque de dois universos lógicos distintos. Donald Trump senta-se com a postura rígida de um enxadrista; seus olhos estão fixos no “Rei” adversário, buscando incessantemente a peça que pode ser derrubada para encerrar a disputa por nocaute.
Ele opera sob a égide da força do impacto, tratando o comércio e a diplomacia como uma sucessão de batalhas táticas onde o único objetivo aceitável é a rendição incondicional do oponente.
Do outro lado da mesa, Xi Jinping ignora as peças isoladas de Trump e foca nos espaços vazios entre elas. Ele joga Weiqi (Go), uma disciplina milenar onde a vitória não nasce de um golpe de misericórdia, mas de um cerco lento e da conexão de influências que, ao longo de décadas, visa tornar o adversário irrelevante por asfixia posicional.
Enquanto Trump grita “Xeque!” ao anunciar uma nova e agressiva rodada de tarifas, acreditando ter encurralado o rival, Xi coloca silenciosamente uma “pedra” na África, outra no Sudeste Asiático e estende uma rede de cabos de fibra ótica pela América Latina.
Para o líder chinês, o tabuleiro é vasto e as bordas são tão importantes quanto o centro. A estratégia de Trump é a da Imediação do Momento. No seu tabuleiro de xadrez, ele utiliza tarifas de 60% e o poder do dólar como movimentos de Rainha, buscando vantagens materiais imediatas e o retorno forçado da indústria para o solo americano.
Ele foca no “Garfo” geopolítico, pressionando aliados e rivais a escolherem entre a segurança militar ou o acesso ao mercado dos Estados Unidos.
Para o jogador de xadrez, o tempo é um recurso a ser gasto em ataques rápidos que desestabilizam a lógica do oponente, utilizando a imprevisibilidade como uma defesa hipermoderna que retira do outro a capacidade de planejar dez jogadas à frente.
Em contrapartida, Xi personifica a Paciência do Tempo. Ele entende que no Go, pedras conectadas formam dragões indestrutíveis. Sua resposta ao xeque-mate americano não é o confronto direto, mas a construção de “olhos” — a autossuficiência tecnológica e financeira que garante a sobrevivência do organismo chinês mesmo sob cerco.
Xi não busca derrubar o rei de Trump; ele busca ocupar o mundo de tal forma que, ao final da década de 2030, os Estados Unidos percebam que, embora ainda possuam suas peças mais fortes, não têm mais casas vazias para onde se mover.
Esta disputa de 2026 a 2030 transcende semicondutores e superávits comerciais. É o maior experimento estratégico da era moderna: de um lado, a eficiência da ruptura e do ataque linear; do outro, a resiliência da rede e do crescimento orgânico.
No salão nobre da geopolítica, o vencedor não será necessariamente quem capturar mais peças, mas aquele que, ao soar do gongo final, ainda detiver o controle sobre o espaço onde a história será escrita.
O conflito de agora até 2030 é este: a tentativa americana de interromper o jogo através da força e da surpresa, contra a tentativa chinesa de expandir o tabuleiro até que as regras americanas não tenham mais onde se aplicar. É a velocidade do Xadrez contra a persistência do Go.
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O movimento de Xadrez de Trump (2025-2026)
O uso das Tarifas – Trump utiliza as tarifas (como as de 60% contra a China ou taxas universais de 10-20%) como um sacrifício calculado. Ele aceita o risco de inflação interna (o “peão” sacrificado) em troca de um objetivo maior: o retorno da indústria (onshoring) e a destruição da vantagem competitiva alheia. No xadrez de Trump, a economia é uma ferramenta de força, não de cooperação.
O Sacrifício por Posição – Trump utiliza tarifas como um gambito e aceita o risco de inflação interna temporária ou tensões com aliados em troca de uma vantagem posicional: forçar empresas a realocarem a produção para solo americano.
No xadrez de Trump, a economia não é um campo de cooperação, mas uma série de duelos bilaterais onde ele busca a vantagem material imediata.
O Controle do Centro (Energia e Dólar) – No tabuleiro global, o “centro” são os recursos vitais. A política de “Dominância Energética” (fomento agressivo ao petróleo e gás) visa controlar o preço da energia global, funcionando como a Rainha no tabuleiro — peça mais poderosa que pode se mover em qualquer direção para desestabilizar economias rivais ou premiar aliados fiéis.
A Tática do “Garfo”: Comércio vs. Segurança – Trump frequentemente coloca seus interlocutores em um “garfo”. Por exemplo, ao pressionar países europeus ou a Índia, ataca dois pontos simultaneamente: exigências comerciais (redução de déficits) e exigências de segurança (aumento de gastos na OTAN ou alinhamento contra o BRICS).
O adversário é forçado a ceder em uma frente para proteger a outra, exatamente como um rei que precisa se mover para fugir de um xeque, perdendo uma torre no processo.
Imprevisibilidade como Arma (A Defesa Hipermoderna) – No xadrez clássico, espera-se lógica. Trump utiliza a estratégia do caos — uma forma de jogo onde ele muda as regras no meio da partida (ex: ameaças repentinas de tarifas via redes sociais ou saída de acordos). Isso retira do adversário a capacidade de planejar 10 jogadas à frente, forçando-o a jogar de forma reativa, onde o erro é mais provável.
O Foco no “Rei” (Líderes vs. Sistemas) – Diferente da burocracia institucional, Trump prefere o embate “Peça a Peça”. Ele foca em negociações diretas com chefes de Estado (Putin, Xi Jinping, Netanyahu), ignorando as “peças menores” (organismos multilaterais como a OMC). Para ele, se você neutraliza ou faz um acordo com o “rei” adversário, o restante do tabuleiro se rende por gravidade.
No outro lado do tabuleiro, Xi e seu jogo de Go seguem regras diferentes. O foco do Go está na territorialidade e no equilíbrio de longo prazo, enquanto o Xadrez foca na hierarquia das peças, no ataque direto e na eliminação do alvo.
Em 2026, a política externa de Trump (frequentemente chamada de “Doutrina do Caos” ou “Xadrez 3D”) é o oposto do silêncio oriental.
A Estratégia do “Go” nas mãos de Xi Jinping:
A Construção de “Olhos” (Soberania e Sobrevivência) – No Go, um grupo de pedras só se torna imortal (impossível de ser capturado) quando possui dois “olhos” — espaços vazios internos que o oponente não pode ocupar.
A similitude: Xi Jinping foca na criação desses dois pulmões estratégicos: a autossuficiência tecnológica (chips e IA de ponta) e a autonomia financeira (o uso do yuan em transações bilaterais e o sistema CIPS).
Para Xi, sem esses “dois olhos”, a China estaria vulnerável ao xeque-mate das sanções americanas. A economia não é um duelo, mas um organismo que precisa garantir sua própria respiração.
A Ocupação de Espaços Vazios (Cercamento Global) – Diferente do xadrez, onde se ataca as peças do oponente, no Go o mestre busca os espaços onde o adversário não está. Enquanto Trump se retira de acordos multilaterais e foca no America First (desocupando espaços no tabuleiro global), Xi move suas pedras para o Sul Global.
Através da Nova Rota da Seda (Belt and Road), a China ocupa “intersecções” vazias na África, América Latina e Sudeste Asiático. O objetivo não é destruir os EUA, mas cercá-los com uma rede de infraestrutura e dependência comercial que torne o isolamento americano uma realidade geográfica.
A Conectividade de Grupos (Resiliência de Cadeia) – No Go, pedras isoladas são fracas; pedras conectadas formam dragões poderosos. A estratégia de “Circulação Dual” de Xi visa conectar o imenso mercado interno chinês com cadeias de suprimentos globais alternativas.
Ao integrar as economias do BRICS+ e da RCEP, Xi cria uma rede de suporte onde, se uma “pedra” (setor econômico) for atacada por tarifas de Trump, ela é sustentada pelas conexões com o restante do grupo, impedindo a captura total.
A Gestão do “Aji” (Paciência com as Ameaças) – Aji (gosto residual) refere-se a ameaças latentes que permanecem no tabuleiro para serem usadas no momento certo. Xi não reage imediatamente a cada “xeque” de Trump com a mesma intensidade. Ele mantém o Aji em áreas como terras raras ou a dívida externa americana.
Ele não “gasta” suas armas de uma vez; deixa-as sobre o tabuleiro como uma ameaça implícita, esperando o momento em que a tática agressiva de Trump cause fadiga aos próprios aliados dos EUA, para então ativar sua vantagem.
O Conceito de “Tenuki” (Ignorar para Ganhar Iniciativa) – Tenuki é a arte de ignorar uma jogada do oponente em uma área do tabuleiro para jogar em um local mais importante. Quando Trump inicia uma guerra cultural ou diplomática barulhenta, Xi frequentemente pratica o Tenuki.
Ele ignora a retórica inflamada e foca na estratégia de longo prazo (Plano 2049). Para Xi, responder a cada provocação é cair na lógica do xadrez do adversário; manter o foco na construção de território em setores do futuro (energia verde e biotecnologia) é a verdadeira prioridade.
Curto Prazo (0-2 anos): Vantagem Trump (Xadrez)
O Primeiro Ato: O Xeque-Agressivo de Trump – A estratégia de Donald Trump, reiniciada com vigor em 2025, é puramente baseada na guerra de manobra. No xadrez, o valor das peças é absoluto e o centro do tabuleiro deve ser dominado a qualquer custo. Para Trump, esse “centro” é a economia americana e o poder do dólar.
Suas jogadas iniciais — as tarifas de 60% sobre produtos chineses e as taxas de 100% em retaliação ao controle de terras-raras — são movimentos de “Rainha”. Ele avança de forma linear, rápida e ruidosa, buscando o que os enxadristas chamam de vantagem material. Para o jogador de xadrez, o sucesso é medido em capitulações.
Trump quer que a China assine acordos que reduzam déficits e destruam subsídios, acreditando que, ao remover as “peças” tecnológicas da China (como chips de última geração), dará o xeque-mate na ascensão oriental.
É uma estratégia de curto prazo, movida pela adrenalina do resultado trimestral e pelo ciclo eleitoral que exige vitórias claras e manchetes de triunfo.
O Contra Ato: O Cerco Silencioso de Xi – Enquanto o “xeque” é anunciado, Xi Jinping mal altera sua expressão. Nas regras do Go, não há peças mais poderosas que outras; cada pedra tem o mesmo valor inicial, e seu poder deriva de como se conectam.
Xi não joga para capturar a Rainha de Trump; joga para tornar o tabuleiro americano irrelevante. A resposta chinesa à “Guerra de Manobra” é a guerra de posição. Quando Trump fecha o mercado americano, a China coloca uma “pedra” no Sudeste Asiático, outra na África e mais uma na América Latina, através da infraestrutura da Nova Rota da Seda.
Enquanto Trump tenta derrubar o “rei” chinês com sanções, Xi trabalha na regra das duas liberdades: autossuficiência tecnológica e desdolarização. Para o mestre de Go, se o grupo de pedras chinês tiver esses “dois olhos” para respirar, ele se torna imortal (invencível), não importa quantas batalhas táticas perca no meio do caminho.
É a estratégia de longo prazo, onde a vitória não vem de um golpe final, mas de acordar um dia e perceber que o adversário está cercado por uma rede de influência superior. No xadrez, a peça que ataca primeiro e com força bruta costuma desestabilizar o oponente.
Ação: Trump utiliza “xeque-direto” com tarifas de 60% e o uso do dólar como arma financeira. A China ainda é muito dependente das exportações para os EUA para manter seu PIB próximo aos 5%. A imprevisibilidade de Trump (o “caos” no tabuleiro) impede que a China planeje suas próximas jogadas com calma.
Resultado: No curto prazo, Trump consegue extrair concessões rápidas, como o aumento da compra de soja e a trégua tarifária de Busan (2025), que parecem vitórias políticas claras para sua base.
Médio Prazo (2-5 anos): Equilíbrio Tenso (O “Ko”)
A Ação: A China responde criando “liberdades” alternativas. Em vez de enfrentar o bloqueio de chips americano de frente, acelera a autossuficiência (como vimos com o sucesso do modelo DeepSeek e avanços em semicondutores em 2025).
O conflito: Trump tenta “cercar” o setor tecnológico chinês, mas a China usa o tempo para cercar mercados emergentes (Sudeste Asiático e África), garantindo que, mesmo perdendo o mercado dos EUA, o “grupo de pedras” chinês continue vivo.
O Resultado: Um impasse. Os EUA ganham na reindustrialização doméstica (onshoring), mas a China se torna o hub tecnológico do Sul Global.
O Horizonte 2030: Quem Vence a Partida? Ao chegarmos ao final da década, o sucesso de cada estratégia dependerá da resistência de seus próprios sistemas:
- O Risco do Xadrez (Trump): o esgotamento. O xadrez de alta intensidade exige sacrifícios (gambitos). Ao sacrificar aliados e estabilidade global para ganhar posições comerciais, Trump corre o risco de chegar ao “final do jogo” com um exército poderoso, mas sem casas para onde se mover, enquanto o mundo aprende a jogar sem as regras americanas.
- O Risco do Go (Xi): o cerco interno. A estratégia de Go exige que o território conquistado seja sólido. Se a economia interna da China ou sua crise demográfica implodirem, o “cerco” externo cairá por falta de sustentação central.
A partida está em curso. No curto prazo, os movimentos bruscos e os “xeques” de Trump ditam o ritmo e causam dor real. No entanto, a história do Go ensina que o jogador que grita “Vitória!” no meio da partida geralmente é aquele que não percebeu que já foi cercado.
No final da década de 2030, saberemos se o mundo será governado pelo brilho tático de um grande mestre do xadrez ou pela persistência silenciosa de quem entende que o tempo é a peça mais poderosa de todas.
Longo Prazo (5-20+ anos): Vantagem da não alternância democrática de Xi Jinping (Go): O Go é um jogo de acúmulo. No final, não importa quem capturou mais peças, mas quem ocupa mais território.
Enquanto o xadrez americano é limitado por ciclos eleitorais (o risco de uma mudança de estratégia em 2028), o Go chinês é geracional. A China joga olhando 2049, o ano do centenário da fundação da República Popular da China (RPC).
Por que o Go tende a vencer: Trump, ao focar no “América Primeiro”, muitas vezes sacrifica alianças (peças aliadas no xadrez) em prol de ganhos materiais imediatos. Isso deixa “espaços vazios” no tabuleiro global. A China ocupa esses espaços silenciosamente com infraestrutura (Rota da Seda) e acordos de livre comércio onde os EUA se retiraram.
Se a China conseguir manter seus “dois olhos” (soberania financeira e tecnológica), vencerá pelo cerco. O custo de manter o sistema americano de sanções torna-se tão alto que os outros países (os “peões” do tabuleiro) acabam gravitando para a órbita de quem oferece estabilidade a longo prazo.





